sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Negócios de Alta frequência e Questão relacionada a "Valor" x "Preço" (analise fundamentalista x gráfica)

Operações de alta frequência começam a ganhar terreno na bolsa, trazendo maior liquidez ao mercado, mas pequeno investidor pode ficar em desvantagem.

Imagine, num piscar de olhos, ou seja, em 100 milésimos de segundo, fechar cinco ordens de compra ou venda de uma ação. Parece ficção? Pois esta realidade começou a fazer parte da bolsa de valores brasileira no início deste mês no segmento Bovespa. Isso porque ganham popularidade as operações de alta frequência, que usam programas baseados em algoritmos. Mas, para o investidor pessoa física, o que muda?
Por enquanto, a nova modalidade não está disponível para todo mundo. Só grandes investidores têm acesso à negociação em alta frequência com ações, o que, para uns, deixa o varejo em desvantagem. A boa notícia é que o mercado deve ganhar liquidez, assim como o custo de transação deve cair.
Os algoritmos são programas de computador que monitoram o mercado financeiro e executam, de forma automática, negócios de acordo com parâmetros preestabelecidos. Mas, para que o programa se torne mais eficiente, é necessário que as operações sejam fechadas rapidamente. É aí que entra a alta frequência, que nada mais é do que a velocidade de processamento dos negócios.
A primeira operação de alta frequência na Bovespa foi realizada no dia 15 pela Link Investimentos, para um cliente institucional. Foi utilizada a modalidade "co-location", em que os clientes instalam seus computadores ao lado das máquinas da Bovespa no centro de processamento de dados da própria bolsa. Essa é a forma mais rápida e sofisticada do chamado acesso direito ao mercado (DMA, na sigla em inglês), ou seja, sem a intermediação do sistema das corretoras.
A maior liquidez é apontada como o principal benefício da nova tecnologia para o pequeno investidor, pontua Jansen Costa, superintendente da área de tecnologia da Ativa Corretora. Isso porque o aumento da velocidade de transações abre espaço para maiores volumes de negócios e, consequentemente, redução dos spreads (diferenças) entre preços de compra e venda de papéis.
E spreads menores evitam que o investidor tenha de vender um ativo muito mais barato se quiser se desfazer dele, acrescenta Costa. "No mercado fracionário, algumas ações não têm liquidez, e o investidor acaba tendo de vender mais barato, e isso deve acabar."
No final das contas, a redução dos spreads, que hoje giram ao redor de R$ 0,30 em ações de baixa liquidez, significa menor custo de transação, reforça Daniel Mendonça de Barros, sócio-diretor da Link. "Isso é bom para todo mundo." Ele lembra ainda que, a partir de 1º de novembro, começar a valer a nova política de descontos de emolumentos da bolsa para as operações de "day trade" (em que a compra e venda é feita no mesmo dia). "Quanto mais se operar, menor será o custo", diz. "E isso, junto com as operações de alta frequência, aumentará, e muito, a liquidez da bolsa."
A elevação da liquidez a partir das operações de alta frequência fará com que haja compradores e vendedores para as ações, mesmo em momentos de nervosismo. E, se uma a ação está caindo sem motivo aparente, os programas veem na queda uma oportunidade e saem comprando, o que amortece os prejuízos com o papel. A grande aposta, no entanto, está justamente no aumento de negócios no mercado de opções - contratos que dão o direito ao investidor de comprar ou vender um ativo numa data específica a um preço predeterminado.
No Brasil, as operações de alta frequência respondem por apenas 6% do volume negociado na bolsa, sendo utilizadas principalmente por gestores quantitativos e investidores institucionais. Só para ser ter ideia do potencial de crescimento, nos Estados Unidos, a utilização dos algoritmos já atinge 70% do volume negociado nas bolsas.
Alguns desses modelos são estruturados sob medida para gestores de recursos, por exemplo, e recebem o nome de "Black Box" (caixa preta), pois os parâmetros não podem ser modificados. Já os sistemas nos quais o investidor define os parâmetros são chamados de "White Box".
Só que, nesse contexto, os segundos podem fazer a diferença entre uma estratégia vencedora e outra perdedora. Por isso, as operações de alta frequência vêm ganhando espaço.
Mas, se os benefícios para o pequeno investidor são ressaltados, causa preocupação para alguns especialistas o fato de o varejo ter acesso aos algoritmos, mas não à alta frequência. Isso, em tese, deixaria a competição dos pequenos com os grandes investidores desigual.
"Essas operações, num primeiro momento, contribuem para o aperfeiçoamento do mercado, uma vez que aumentam a liquidez e reduzem spreads, mas não há democratização de tecnologia", salienta Luiz Rogé, sócio-diretor do portal InvestCerto. Para ele, o investidor menor não tem como concorrer com a máquina, que tem mais condição de executar estratégias de melhor preço, preço médio, arbitragem, entre outras.
Isso já é sentido no dia a dia com os algotraders, acrescenta Rogé. É muito difícil acompanhar as ofertas de compra e venda tanto no mercado à vista quanto no de opções, por conta da interferência desses programas que conseguem "enxergar" mais facilmente as distorções de preços, diz.

FONTE: Valor Econômico de 30\9\2010  - Por Alessandra Bellotto e Luciana Monteiro
 
Entre a análise gráfica e a busca do fundamento e do dividendo


Fernando L. da Cunha - 01\10\2010  - Valor Econômico

Qual a grande diferença entre gerir uma carteira em bases fundamentalistas ou por meio de análises gráficas ou outras técnicas?
A maior diferença é que a baseada na análise fundamentalista leva o investidor a descobrir o VALOR da empresa em vez do PREÇO de sua ação. Como diz o megainvestidor Warren Buffett, PREÇO é o que se paga e VALOR é o que se leva.
A busca de uma boa opção de investimentos apenas pelo preço acaba por limitar o nosso campo de conhecimento e aumenta substancialmente o risco. Ela nos coloca diante de inúmeras variáveis, e sabemos que, quanto maior o número de variáveis, menor a chance de acertar o alvo e maior o risco.
Na busca pelo melhor preço, temos que levar em conta as oscilações das moedas, das taxas de juros, das contas externas, da política interna e externa, do humor dos governantes ao redor do mundo. Só não levamos em conta os números da empresa. É bem verdade que o ganho poderá ser substancial, mas a perda também.
Nunca me esqueço de uma história que ouvi quando ainda era estagiário. Um velho amigo me contou que seu diretor, numa determinada reunião de investimentos, recomendou veementemente a compra de uma ação pelo fato de a cotação estar bem abaixo do valor de seis meses antes. Interpelado por outro diretor a respeito dos parâmetros usados para justificar a recomendação, ele voltou-se para todos e disse : "a ação está 20% abaixo do preço que estava há seis meses , isto não é justificativa suficiente para vocês ? "
Existe também a crença na "lei dos pequenos números" pela qual ir de R$ 0,10 para R$ 0,20 é mais fácil do que ir de R$ 10,00 para R$ 20,00.
Todas estas "afirmações" trazem um fator psicológico, e quando entramos neste campo a análise técnica perde todo o sentido, e o imponderável ganha uma dimensão maior.
Já a análise fundamentalista nos permite ignorar num primeiro momento as cotações das ações para nos voltarmos aos valores das empresas. A partir do momento em que começamos a estudar os fundamentos da empresa, seus números, seus mercados, seus investimentos, suas perspectivas de vendas, começamos a entrar num campo aonde o ponderável predomina e o psicológico perde terreno. Começamos a fazer perguntas cujas respostas poderão ser comprovadas e passam a fazer sentido, a procurar o valor das empresas e a questionar sobre o que realmente estamos comprando e por quê.
Se a bolsa cair , veremos que a empresa continuará funcionando, vendendo, criando resultados, pagando dividendos, e portanto, existindo. O foco não estará mais na preocupação se a bolsa irá cair ou subir , e se cair, devemos comprar mais ações empresa escolhida.
Não pretendo provar que a análise fundamentalista é a única ferramenta para uma boa gestão. O especulador, o analista gráfico e outros gestores possuem suas ferramentas e as utilizam de maneira eficaz, porém, eles estão à procura de preço.
A análise fundamentalista privilegia a paciência e o longo prazo. Enaltece o VALOR em vez do preço que permanece apenas como uma referencia. Uma ação pode estar com o preço baixo e estar caríssima, enquanto outra pode estar barata com o preço alto. A análise fundamentalista mostrará conclusivamente quanto vale a empresa.
O jornal "O Globo" publicou reportagem no dia 13 de setembro constatando que o valor de todas as empresas cotadas em bolsas de 84 países somados sofreu uma desvalorização de U$ 17 trilhões de outubro de 2007 a 10 de setembro de 2010, ou 27,8%. No mesmo período, a bolsa brasileira sofreu uma desvalorização de apenas 9% e as ações tiveram comportamentos heterogêneos.
A Vale caiu 23%, Petrobras perdeu 21% e Usiminas , 25%. Já a Souza Cruz subiu 69% (94% considerando-se os dividendos), a Tietê subiu 41% (84% com dividendos), a Coelce ganhou 11% (37% com dividendos ), a Telesp caiu 30% (ou 7% com os dividendos), a AmBev subiu 39% (48% em dividendos) e a Transmissão Paulista 16% (50% com dividendos).
Coincidência ou não , as empresas pagadoras de dividendos tiveram um desempenho claramente favorável , o que pode confirmar que os investidores priorizam o VALOR.
Fernando Leitão da Cunha é gestor e autor do livro Viva de dividendos

E-mail fernando@vivadedividendos.com.br

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