Não foi uma surpresa o Fundo Monetário Internacional (FMI) não ter conseguido resolver os graves desequilíbrios cambiais que assolam o mundo, em sua recente reunião. A expectativa de alguma solução de consenso foi agora postergada para o encontro do G-20, grupo das 19 economias mais industrializadas mais a União Europeia, que será realizado em Seul, na Coreia do Sul, em novembro.
É muito provável, porém, que nenhum avanço ocorra também em novembro. Afinal, exatamente um ano antes, na reunião do G-20 em St. Andrew, Escócia, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, já havia alertado, sem qualquer repercussão, que a crise global causava a entrada excessiva de dólares no Brasil, provocando a apreciação do real e prejudicando a competitividade das exportações brasileiras.
Não há avanço nessas discussões pela absoluta falta de interesse dos principais motores do desequilíbrio, os Estados Unidos e a China. Instituições como o FMI e o Banco Mundial foram criadas na década de 40, por inspiração da liderança americana após a II Guerra Mundial e raramente afrontam Washington. O diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, disse na última reunião que os mercados emergentes deveriam aceitar valorizar suas moedas para contribuir para o reequilíbrio das economias avançadas.
Um ponto positivo emergiu, porém, da reunião: passou a ficar claro na grave distorção cambial dos dias de hoje o papel dos Estados Unidos, que não é mais visto apenas como vítima da persistente política de desvalorização do yuan da China.
Analistas e economistas importantes como o prêmio Nobel de Economia e professor da Universidade de Columbia, Joseph Stiglitz, e o colunista do "Financial Times", Martin Wolf, têm ressaltado o papel dos Estados Unidos na confusão cambial atual. Ou seja, depois de ter gestado a crise internacional em 2001 ao alimentar com a expansão monetária a bolha imobiliária que explodiu em 2007, a solução americana para o novo problema é mais expansão monetária e redução dos juros.
Com as taxas já próximas de zero, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) está acenando com mais expansão monetária, provavelmente no próximo encontro, em 3 de novembro, se a economia não responder, como parece que está acontecendo. Como diz Martin Wolf, os Estados Unidos querem inflacionar o resto do mundo, enquanto o resto do mundo tenta deflacionar os Estados Unidos.
Washington teme enfrentar o mesmo problema que assolou o Japão na década de 90, a deflação. Os juros baixos, teoricamente, colaborariam no ajuste dos preços dos imóveis e estimulariam os gastos. Essa estratégia, segundo Wolf, não leva em conta as repercussões nefastas no resto do mundo, especialmente nos mercados emergentes para onde o capital flui com vigor em busca de retorno mais elevado. Como resultado, o câmbio se aprecia nesses mercados, a inflação sobe, há uma acumulação indesejável de dólares e a estabilidade monetária é ameaçada.
Não só o Brasil é afetado, mas vários outros mercados emergentes que estão registrando elevadas apreciações cambiais como a África do Sul, o Chile e a Coreia do Sul. Até a Alemanha já reclamou por causa do impacto da política americana na valorização do euro.
O primeiro ministro japonês, Naoto Kan, apelou à Coreia do Sul e China para "agirem responsavelmente" no câmbio, criticando as manobras desses países em defesa de suas moedas. Kan se esquece que o Japão ganhou competitividade no passado mantendo sua moeda depreciada e que, neste mês, chegou a vender US$ 25 bilhões em ienes. O iene subiu 29% em relação ao dólar desde a quebra do Lehman, em setembro de 2008. A Coreia do Sul também tem vendido o won e, assim como o Japão, diz que é para evitar a volatilidade.
Com a política de manter seu câmbio atrelado ao dólar e empilhar reservas indefinidamente, a China preserva sua competitividade no mercado internacional. As reservas chinesas cresceram US$ 194 bilhões no terceiro trimestre, atingindo US$ 2,65 trilhões.
O mais recente mercado emergente a reagir foi a Tailândia, que acaba de aplicar um imposto de 15% sobre os ganhos de capital e juros recebidos por investidores estrangeiros para desestimular o capital especulativo. O fluxo de investimento estrangeiro levou o baht tailandês ao patamar mais elevado desde a crise da Ásia, em 1997 e 1998. O movimento da Tailândia é sinal de descrédito de que o G-20 apresente uma solução para a guerra cambial.
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