sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O papel da verdadeira intuição na escolha dos investimentos

Como distinguir a verdadeira intuição de meras e equivocadas impressões? Levante a mão quem nunca deparou com essa dúvida quando pensou em fazer um investimento!




Seria exemplo de intuição o tal "gut feeling", como os anglófonos chamam aquela espécie de sentimento que surge nas tripas, na boca do estômago, a vozinha que a gente escuta, bem baixinho, e que nos aponta um caminho diferente daquele que estamos tomando? E o tempero do arrependimento posterior - "eu sabia que deveria ter feito tal coisa, por que raios não fiz?" - seria também um exemplo de intuição?



Para começo de conversa, um alerta importante: na psicologia econômica, diversos autores, incluindo nosso venerado Nobel de Economia Daniel Kahneman, denominam o funcionamento mental automático, super propenso a erros sistemáticos, justamente de Sistema 1 ou intuitivo - e está semi armada a confusão...



O que eles chamam de intuitivo, nesse contexto, seriam as operações mentais automáticas que fazem uso das heurísticas. Trata-se daqueles atalhos mentais que, se nos entregam rapidez e simplificação nas tarefas de perceber, rememorar e avaliar dados, também podem nos prejudicar com imprecisões, falta de rigor e parcialidade. São os tais vieses, que acabam nos conduzindo a erros sistemáticos na hora de fazer escolhas.



E nunca é demais lembrar que esses erros estão presentes na maioria das pessoas, na maior parte das vezes, e de modos bastante similares - por isso são sistemáticos, quase previsíveis. Do meu lado, eu prefiro chamar esse jeito de funcionar de piloto-automático e pronto. Ou no máximo, "regido pelo princípio do prazer", que é aquele que se opõe ao pensar e se mostra muito vulnerável às ilusões, se estivermos falando na língua da psicanálise.



E daí reservo o termo intuição para um tipo particular de captação dos fenômenos internos e externos à psique, que poderia ter grande possibilidade de acerto. Vamos traduzir: é aquele "clic" que atravessa qualquer outra consideração, sobre o que vai acontecer ou como seria melhor proceder em determinada situação. Quase como se adivinhássemos qual a melhor opção para alguma encruzilhada.



Não dá para explicar direito, é um facho de luz rápido e, em grande parte das vezes, essa luz se apaga se tentarmos analisá-la pela lógica habitual. Mas o mais intrigante da história é que, depois, olhando para trás, vemos que ela estava correta.



Ao fazer um investimento, é comum ter dúvidas sobre seu acerto, uma vez que se trata de uma decisão tomada no presente, mas cujos retornos só serão conhecidos no futuro; portanto, envolve incerteza e risco. Afinal, quem conhece o futuro antes que ele se concretize, certo?



Eu recomendo, então, dois tipos de treinamento básico para tentar identificar a intuição dentro de nós. A primeira missão não é lá muito fácil: tentar serenar o "roc-roc" quase incessante que ocupa nossa mente com mais frequência do que seria bom para nós. Para isso, vale lançar mão do que for possível, indo da meditação à psicanálise, passando por jardinagem, surf ou o que for, desde que sobre espaço para o pensar verdadeiro.



A segunda é mais simples, ainda que trabalhosa: é o velho diário de bordo, onde se registram impressões e análises do momento, acompanhadas dos sentimentos presentes, em torno das opções para o investimento almejado. Tudo isso deve ser datado: isso é fundamental! Mais tarde, o investidor retorna e verifica s e os prognósticos estavam corretos ou não, e para que lados pendeu mais.



Para refinar mais ainda a estratégia, é bom treinar com temas um pouco mais distantes do que os próprios investimentos, como, por exemplo, previsões acerca da conjuntura econômica atual - se a crise acabou ou não, quanto tempo mais durará, se os governos devem ou não injetar mais dinheiro para fazer a economia rodar e outras do gênero são as minhas favoritas no momento.



Com essas técnicas, talvez seja possível começar a reconhecer um pouco mais quando a verdadeira intuição se manifesta em nós, reduzindo o risco de acreditar em meras viagens pela maionese nossa de cada dia.



Vera Rita de Mello Ferreira é psicanalista, representante no Brasil da International Association for Research in Economic Psychology (Iarep) e autora dos livros "Psicologia Econômica" e "Decisões econômicas - você já parou para pensar?"



E-mail verarita@verarita.psc.br

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