quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Apetite por Brasil está longe de se tornar uma bolha

A forte migração de recursos para países emergentes está longe de acabar e a possibilidade de bolha deve ser descartada nesses mercados, pelo menos no curto prazo. A opinião é de Scott Leiberton, diretor global responsável pela estratégia de ações da Principal Global Investors, grupo americano que reúne US$ 284,7 bilhões em ativos sob gestão no mundo, dos quais US$ 1,2 bilhão estão em ações de empresas brasileiras.
O crescimento econômico robusto, puxado pela expansão do consumo doméstico na onda da melhora de renda, faz dos emergentes mercados-chave para a recuperação global, acrescenta Robert Baur, economista-chefe global da Principal. "São países como a China, Brasil e Índia que estão tirando a economia da crise e esse é um longo processo."
Há, portanto, fundamentos para a atração de recursos, na visão de Leiberton, o que minimiza o risco de bolha no curto e médio prazos. "É natural que neste momento os emergentes não sejam negociados com tanto desconto em relação aos países desenvolvidos como antes, dado o melhor crescimento econômico e as reformas estruturais feitas nesses mercados", avalia o diretor.
Os maiores riscos de bolha estão em mercados menores, o que não é o caso do brasileiro, continua Leiberton. "O Brasil tem uma economia mais diversificada e uma classe média muito promissora", diz ele, ressaltando que os investidores estrangeiros continuam buscando boas histórias de crescimento doméstico. Baur admite que muitas das empresas que se beneficiam do consumo local estão próximas das máximas, mas não superavaliadas.
A popularidade dos emergentes e, em particular, do Brasil é tanta que até o perfil do investidor interessado em aplicar recursos no país está mudando. Segundo Leiberton, há cerca de cinco anos, institucionais como fundos de pensão e seguradoras dominavam a cena. Agora, a procura maior tem vindo de investidores de varejo. Isso é algo que pode ser visto principalmente no Japão, diz o executivo.
Outra mudança percebida pela gestora é que, ao longo dos dois últimos anos, os estrangeiros passaram a buscar exposição a aplicações denominadas em moeda local. Antes, a grande preferência era correr risco em dólar, aplicando em recibos de ações negociados em Nova York, por exemplo.
No portfólio global, o Brasil tem lugar de destaque, com uma participação de 20% do total de recursos destinados a ações de emergentes. Na busca por histórias domésticas, a Principal elegeu empresas de consumo, como varejistas e prestadoras de serviços de saúde, companhias industriais, de tecnologia e bancos, independente do tamanho.
O setor de tecnologia se mostra particularmente atraente nos emergentes, sobretudo no Brasil, avalia Baur. Para ele, o aumento da renda abre a possibilidade de aquisição de bens antes distantes do público mais pobre, como computadores. "O consumo doméstico nos emergentes está crescendo de forma sustentável e essa é uma situação que vai se manter por um bom tempo", afirma o executivo.
A Copa do Mundo, em 2014, e a Olimpíada, em 2016, servirão para melhorar a visão que a comunidade internacional tem sobre o Brasil. "São eventos que vão aumentar a visibilidade do país de modo a deixar o investidor mais confortável com suas aplicações no Brasil", avalia Leiberton, lembrando que a percepção em relação à África do Sul melhorou muito após o país sediar a Copa do Mundo este ano.
Quanto à economia americana, o economista da Principal diz não acreditar em um "double dip" - receio de uma nova recaída - e admite que sua visão é levemente mais otimista que a média. Na avaliação do executivo, o setor imobiliário deverá se estabilizar a partir do ano que vem, as receitas fiscais começarão a subir e o Produto Interno Bruto (PIB) americano deverá registrar expansão de 2,5% a 3%. "E um crescimento nessa faixa é suficiente para reduzir o desemprego", diz Baur.
No universo das matérias-primas, as commodities metálicas e agrícolas se mostram com os maiores potenciais de ganhos, avalia Baur. "Com o crescimento dos emergentes, mais casas e carros serão comprados, por exemplo, e o alumínio é algo usado em tudo", diz. No caso das agrícolas, há um choque de oferta provocado por fatores climáticos.
A Principal está presente no Brasil desde 1999 por meio de uma joint venture com o Banco do Brasil, formando a Brasilprev Seguros e Previdência. No ano passado, a parceria foi renovada por mais 23 anos.


Fonte: Valor Econômico de 18/11/2010
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