segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Oferta ou Demanda

Tudo em economia tem a ver com oferta e demanda. Normalmente, ambas são iguais e, se assim não for, forças poderosas as aproximam uma da outra. Mas, em vista dos níveis elevados e persistentes de desemprego nos EUA, há uma questão real sobre a natureza do problema: a demanda agregada é muito baixa ou há problemas com a oferta?
O governo do presidente Barack Obama parece acreditar que o problema é de demanda, e aprovou uma após outra medida de estímulo, reduzindo impostos e ampliando as transferências e os gastos do governo para estimular o consumo e o investimento. O Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) tem uma visão semelhante, não só mantendo baixíssimos os juros de curto prazo, como também embarcando numa arriscada política de metas para as taxas de longo prazo. Alguns economistas progressistas querem ainda mais.
Por que essas políticas não funcionaram, até agora, na redução do desemprego, embora a recuperação do crescimento esteja no bom caminho? Os economistas progressistas dizem que o estímulo funcionou, afastando uma recessão muito mais profunda - se não pior -, mas que as medidas foram tímidas demais para conseguir gerar uma recuperação robusta.
O economista conservador responde que isso ocorreu justamente porque o governo tomou tanta liberdade com o dinheiro dos contribuintes, que as famílias, com medo dos impostos futuros, estão na defensiva e aumentando sua poupança. Além disso, o crescente ativismo governamental deixou as empresas inquietas sobre futuras medidas regulamentares e tributárias e, portanto, relutantes em investir.
A verdade está provavelmente em algum ponto intermediário. Os gastos do governo - especialmente com benefício desemprego, com ajuda os Estados e com alguns projetos de construção civil - provavelmente ajudaram a evitar uma recessão mais dolorosa, mas o endividamento continuou a preocupar as famílias, que também estão tentando reconstruir sua poupança e reduzir sua dívida depois de uma farra de gastos. A incerteza do marco regulatório em áreas como a de saúde torna difícil a tomada de decisão de investimentos de longo prazo não apenas para o setor de saúde, como também para as empresas realizarem contratações de longo prazo.
Alguns economistas argumentam que, ao contrário de recessões passadas, quando trabalhadores eram temporariamente dispensados de um setor e recontratados quando a recuperação ganhava corpo, a partir de 1991, a perda de empregos foi mais permanente. A situação foi agravada pelo fato de as empresas terem adiado, até a irrupção de uma recessão, difíceis decisões sobre fechamento de fábricas inviáveis e sobre cortes de trabalhadores. Em consequência, os trabalhadores desempregados tiveram de buscar empregos em novos setores, o que exigiu mais tempo e treinamento.
Um caminho mais saudável e sustentável para melhorar o crescimento do emprego é facilitar a requalificação profissional dos desempregados, especialmente os que tinham trabalho relacionado com a construção civil.
Independentemente de qual seja a explicação correta, a história das recessões mais recentes sugere que não devemos ficar surpresos com o fato de a recuperação do emprego estar levando tempo. Existe, porém, um aspecto diferente no problema, desta vez: demissões na construção civil. Aqui reside uma explicação adicional para o morno crescimento do emprego, bem como uma lição salutar de política econômica.
No boom mais recente, o emprego na construção civil cresceu significativamente, tendo os investimentos em habitação crescido 50% entre 1997 e 2006, como percentagem do PIB. Como meu colega Erik Hurst e seus coautores mostraram, Estados que tiveram os maiores crescimentos na construção civil como proporção do PIB no período 2000-2006 tenderam a ter a maior contração nesse setor em 2006-2009. Esses Estados também tenderam a registrar o maior aumento no desemprego entre 2006 e 2009.
Os desempregados não são apenas os trabalhadores da construção civil, mas também mão de obra complementar, como corretores imobiliários e funcionários de bancos, bem como todos aqueles que trabalham com casas, como encanadores e eletricistas. Assim, as perdas de emprego vão muito além daquelas no setor de construção civil.
É difícil crer que algum crescimento da demanda agregada venha a impulsionar o mercado imobiliário - que, lembremos, foi aquecido por perspectivas de valorização contínua de preços que pouca gente parece propensa a ver, hoje - o suficiente para voltar a empregar todos esses trabalhadores. Hurst estima que o desemprego "estrutural" pode ser responsável por até três pontos percentuais do desemprego total. Em outras palavras, não fosse devido à construção civil, a taxa de desemprego nos EUA seria 6,5% - uma situação muito mais saudável do que hoje.
Os formuladores de políticas deveriam lembrar que o boom imobiliário foi alimentado por uma política monetária frouxa, que buscou ampliar o crescimento do emprego à medida que os EUA se recuperavam da recessão passada. Com efeito, o número de formandos no ensino médio caiu em Las Vegas, à medida que as pessoas trocavam a escola por empregos de baixa qualificação na construção civil. Agora, esses desempregados com baixa escolaridade são em número muito maior que os desempregados com diploma superior.
Para as autoridades econômicas, a lição é clara: em vez de tentar constantemente ampliar os gastos e, potencialmente, criar problemas para o futuro, um caminho mais sustentável para melhorar o crescimento do emprego é facilitar a requalificação profissional dos desempregados, especialmente os que tinham empregos relacionados com a construção civil. Com o tempo, uma oferta de mão de obra mais qualificada criará uma demanda mais saudável e sustentável.
Raghuram Rajan é professor de Finanças na Escola Booth of Negócios, na Universidade de Chicago, e autor de "Fault Lines: How Hidden Fractures Still Threaten the World Economy" (linhas de falhas: como fraturas ocultas ainda ameaçam a economia mundial). Copyright: Project Syndicate, 2011. POdcast no link:www.media.blubrry.com/ps/media. libsyn.com/media/ps/rajan13.mp3

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