No início de janeiro de 2010, eram quase unânimes as opiniões de especialistas do mercado financeiro prevendo que as ações figurariam, novamente, nas primeiras posições do ranking dos melhores investimentos para o ano.
Era consenso geral que o Índice Bovespa estaria na faixa entre 80 mil e 85 mil pontos no final de 2010, com alta entre 17% e 24%. E o que se viu foi o índice em 69.304 pontos, muito próximo à estabilidade. É importante ressaltarmos que o Valorpublicou, recentemente, matérias sobre os equívocos nas previsões para a bolsa brasileira em 2010. A oportuna comparação feita pelo jornal entre a projeção dos especialistas e a realidade confirmada deve servir de alerta para que utilizemos com cautela e bom senso tais previsões.
Normalmente, essas previsões falham, pois não consideram padrões históricos, reversões de tendência e eventuais novos eventos. Além disso, é importante notar que uma característica dessas projeções é o recorrente otimismo, ou seja, dificilmente se verá estimativas de queda da bolsa. Esse fato é explicado pelo natural "conflito de interesses" existente, pois as projeções são feitas por agentes econômicos que atuam na área e que, consequentemente, não têm interesse em assustar e afastar os investidores do mercado acionário.
Infelizmente, a maioria dos investidores acredita que os profissionais de mercado possuem uma espécie de "bola de cristal" que os orientará, precisamente, sobre o comportamento futuro dos diversos ativos financeiros. Esses profissionais, pressionados por essa expectativa, aliada ao "conflito de interesses", muitas vezes acabam alimentando a fantasia e produzindo, fatalmente, desilusões e prejuízos. Não convém, portanto, acreditar cegamente nessas previsões. Como em qualquer outra área, a unanimidade nas projeções deve sempre passar pela análise crítica. Nota-se ao checar as previsões efetuadas, ano após ano, que a margem de acerto é bem baixa.
No caso do mercado acionário, podemos afirmar que qualquer previsão quanto ao desempenho futuro é muito mais difícil e inexata em comparação às outras variáveis da economia, pela característica específica desse tipo de investimento, que apresenta um alto grau de volatilidade (oscilação). Além disso, a bolsa normalmente antecipa possíveis alterações de curso da economia. Não é à toa que é considerada renda variável, pois não há como prevê-la com exatidão. No caso do mercado de ações, ao contrário de outros ativos, quanto menor o horizonte de análise, maior a dificuldade de previsão.
Em suma, no longo prazo o retorno das ações na bolsa se aproxima do real desempenho das empresas em seus balanços financeiros; isto é, os exageros dos períodos de otimismo e pessimismo que ocorrem, rotineiramente, nas bolsas têm seus efeitos bem atenuados na performance das ações no longo prazo, diferentemente do impacto no curto prazo.
Ao analisarmos o Índice Bovespa desde a sua criação, no início de 1968, até o final de 2010, constatamos que o rendimento médio real nesse período foi de 9,2% ao ano (acima do IGP-DI). Ao longo desses 43 anos, 18 anos apresentaram alta real superior a 15% ao ano e 12 anos queda real superior a 15% ao ano. O pior ano foi 1990, que apresentou queda real de 74,19%. E o melhor, em sequência, 1991, com alta de 317,74%. Esses dados nos indicam que o mercado acionário tem períodos cíclicos de otimismo e pessimismo que se compensam ao longo do tempo, sempre trazendo o rendimento médio real para próximo do seu padrão histórico.
Ao iniciarmos 2011, mais uma vez nos deparamos com novas projeções dos agentes econômicos para o Ibovespa. Os números, conforme matéria do Valorpublicada em 23 de dezembro, variavam de 75 mil a 89 mil pontos para o índice ao final do ano, com valor médio das projeções próximo a casa dos 84 mil pontos. Novamente, o otimismo generalizado está presente. Projeções com números exatos, sem indicar faixas de oscilação e probabilidades associadas, carecem de rigor matemático e estatístico. Portanto, estão sujeitas a grande imprecisão.
Não estou defendendo que simplesmente essas projeções sejam ignoradas, pois são feitas com base numa realidade em transformação. Aconselho, apenas, que a leitura dessas análises seja feita com o devido cuidado e fique mais para âmbito do simples "palpite", com pouco rigor técnico.
Fabio Colombo é administrador de investimentos, graduado em Engenharia de Produção pela Escola Politécnica-USP

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