terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Novamente as previsões para o Ibovespa falharam

No início de janeiro de 2010, eram quase unânimes as opiniões de especialistas do mercado financeiro prevendo que as ações figurariam, novamente, nas primeiras posições do ranking dos melhores investimentos para o ano.
Era consenso geral que o Índice Bovespa estaria na faixa entre 80 mil e 85 mil pontos no final de 2010, com alta entre 17% e 24%. E o que se viu foi o índice em 69.304 pontos, muito próximo à estabilidade. É importante ressaltarmos que o Valorpublicou, recentemente, matérias sobre os equívocos nas previsões para a bolsa brasileira em 2010. A oportuna comparação feita pelo jornal entre a projeção dos especialistas e a realidade confirmada deve servir de alerta para que utilizemos com cautela e bom senso tais previsões.
Normalmente, essas previsões falham, pois não consideram padrões históricos, reversões de tendência e eventuais novos eventos. Além disso, é importante notar que uma característica dessas projeções é o recorrente otimismo, ou seja, dificilmente se verá estimativas de queda da bolsa. Esse fato é explicado pelo natural "conflito de interesses" existente, pois as projeções são feitas por agentes econômicos que atuam na área e que, consequentemente, não têm interesse em assustar e afastar os investidores do mercado acionário.
Infelizmente, a maioria dos investidores acredita que os profissionais de mercado possuem uma espécie de "bola de cristal" que os orientará, precisamente, sobre o comportamento futuro dos diversos ativos financeiros. Esses profissionais, pressionados por essa expectativa, aliada ao "conflito de interesses", muitas vezes acabam alimentando a fantasia e produzindo, fatalmente, desilusões e prejuízos. Não convém, portanto, acreditar cegamente nessas previsões. Como em qualquer outra área, a unanimidade nas projeções deve sempre passar pela análise crítica. Nota-se ao checar as previsões efetuadas, ano após ano, que a margem de acerto é bem baixa.
No caso do mercado acionário, podemos afirmar que qualquer previsão quanto ao desempenho futuro é muito mais difícil e inexata em comparação às outras variáveis da economia, pela característica específica desse tipo de investimento, que apresenta um alto grau de volatilidade (oscilação). Além disso, a bolsa normalmente antecipa possíveis alterações de curso da economia. Não é à toa que é considerada renda variável, pois não há como prevê-la com exatidão. No caso do mercado de ações, ao contrário de outros ativos, quanto menor o horizonte de análise, maior a dificuldade de previsão.
Em suma, no longo prazo o retorno das ações na bolsa se aproxima do real desempenho das empresas em seus balanços financeiros; isto é, os exageros dos períodos de otimismo e pessimismo que ocorrem, rotineiramente, nas bolsas têm seus efeitos bem atenuados na performance das ações no longo prazo, diferentemente do impacto no curto prazo.
Ao analisarmos o Índice Bovespa desde a sua criação, no início de 1968, até o final de 2010, constatamos que o rendimento médio real nesse período foi de 9,2% ao ano (acima do IGP-DI). Ao longo desses 43 anos, 18 anos apresentaram alta real superior a 15% ao ano e 12 anos queda real superior a 15% ao ano. O pior ano foi 1990, que apresentou queda real de 74,19%. E o melhor, em sequência, 1991, com alta de 317,74%. Esses dados nos indicam que o mercado acionário tem períodos cíclicos de otimismo e pessimismo que se compensam ao longo do tempo, sempre trazendo o rendimento médio real para próximo do seu padrão histórico.
Ao iniciarmos 2011, mais uma vez nos deparamos com novas projeções dos agentes econômicos para o Ibovespa. Os números, conforme matéria do Valorpublicada em 23 de dezembro, variavam de 75 mil a 89 mil pontos para o índice ao final do ano, com valor médio das projeções próximo a casa dos 84 mil pontos. Novamente, o otimismo generalizado está presente. Projeções com números exatos, sem indicar faixas de oscilação e probabilidades associadas, carecem de rigor matemático e estatístico. Portanto, estão sujeitas a grande imprecisão.
Não estou defendendo que simplesmente essas projeções sejam ignoradas, pois são feitas com base numa realidade em transformação. Aconselho, apenas, que a leitura dessas análises seja feita com o devido cuidado e fique mais para âmbito do simples "palpite", com pouco rigor técnico.
Fabio Colombo é administrador de investimentos, graduado em Engenharia de Produção pela Escola Politécnica-USP

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