quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Capital pode ficar mais caro e mais escasso

O fim dos anos 90 foi uma aberração, dizem. O dinheiro fluiu para os mercados emergentes mas subitamente os abandonou, uma interrupção que, na época, pareceu uma crise gigantesca.

A primeira década do novo século, dizem, foi uma aberração. Primeiro a bolha das empresas pontocom estourou. Aí os governos de mercados emergentes, já escaldados pelos anos 90, juntaram reservas gigantescas em dólares, o que Ben Bernanke, presidente do Fed, o banco central americano, apelidou de "excesso mundial de poupança." Juntamente com o dinheiro fácil e a regulamentação míope nos países desenvolvidos, esse capital alimentou uma orgia de crédito e a bolha imobiliária nos Estados Unidos e em outros países.

Os últimos anos, dizem, foram uma aberração. O fim do boom imobiliário e de crédito resultou numa daquelas crises que só ocorre uma vez a cada século. Os governos dispararam para socorrer seus mercados e banqueiros centrais derrubaram os juros para níveis mínimos. Os investidores debandaram para a segurança dos títulos do Tesouro americano, ajudando a manter os juros baixos apesar de os EUA tomarem empréstimos vultosos, e agora é o Fed que está coibindo a alta dos juros.

E agora? O que acontecerá quando a economia dos EUA se recuperar, como certamente fará algum dia? Um resultado provável: a inversão do excesso mundial de poupança e o fim da abundância de capital barato.

Olhando além dos próximos anos, o McKinsey Globe Institute, centro de pesquisas filiado à consultoria, prevê uma explosão de investimentos por parte dos mercados emergentes, especialmente China e Índia, ao mesmo tempo em que esses países começam a economizar menos. Empresas, bancos, consumidores, investidores e governos "terão de se adaptar a um mundo em que o capital fica mais caro e menos abundante, e onde metade da poupança e investimento mundiais ocorrem nos mercados emergentes", afirma o McKinsey num novo relatório chamado "Adeus ao capital barato".

Como um todo, a economia mundial só pode investir o que poupa. No passado, um produtor rural dividia sua safra entre o milho que ele comeria ou venderia (consumo) ou o que ele guardaria (poupança) para semear no ano seguinte (investimento). O mesmo acontece na produção da economia mundial. Numa reviravolta histórica, boa parte da poupança mundial nos últimos 25 anos veio da China e outros países em desenvolvimento e fluiu para países ricos, especialmente os EUA.

Frugais trabalhadores e camponeses chineses punham dinheiro no banco. Os bancos emprestavam ao governo, que emprestava ao Tesouro dos EUA e às gigantes hipotecárias americanas Fannie Mae e Freddie Mac. E isso acabou financiando hipotecas baratas nos EUA antes do colapso do mercado e também o grande pacote de estímulo fiscal do governo de Barack Obama depois do choque financeiro. O governo, as empresas e as famílias chinesas responderam por uma notável proporção de US$ 1 de cada US$ 4 poupados mundialmente em 2008.

O centro de estudos da McKinsey afirma que essa tendência deve fenecer nos próximos anos, à medida que a China e a Índia comecem a investir mais. "A China", afirma o relatório, "planeja construir novos metrôs, autoestradas e trens de alta velocidade em suas 170 maiores cidades."

Cento e setenta! Para acompanhar o crescimento da população urbana, a China precisa criar o equivalente a uma Nova York em espaço comercial e residencial a cada dois anos; a Índia, uma Chicago por ano. Com tantas fábricas asiáticas produzindo quase no limite da capacidade, é provável que as despesas de capital aumentem vertiginosamente, prevê o economista Frederic Neumann, do HSBC em Hong Kong. Com base numa média de previsões de crescimento mundial, a McKinsey prevê que o investimento global - que respondia por pouco mais de 22% da produção mundial antes da crise - pode chegar a quase 25% até o fim da década, um nível inédito desde o início dos anos 70.

Mas a China e, especialmente, seus consumidores devem economizar menos se a história e os planos quinquenais da China servirem de guia. Os ainda frugais japoneses também devem economizar menos quando um número crescente de aposentados começar a gastar suas economias - embora a falta de investimentos promissores num país em que a população está encolhendo indique que o Japão continuará exportando poupança para outros países.

Mas de onde é que virão essas economias? Se tudo for bem, boa parte delas virá dos EUA. Os americanos, castigados pelos últimos anos, provavelmente vão economizar mais. O governo federal provavelmente terá de enxugar o déficit (processo que os economistas, fãs de cunhar novos termos, gostam de chamar de "poupança negativa"), mesmo tendo que gastar mais com aposentadorias e saúde. Se as famílias americanas e britânicas continuarem seguindo no caminho em que estão, o índice mundial de poupança vai subir um ponto porcentual e compensar parcialmente o declínio na poupança chinesa, prevista para o momento em que os chineses vão começar a gastar mais de suas rendas, afirma a McKinsey.

Mas só parcialmente. O excesso mundial de poupança pode muito bem se tornar uma escassez mundial de poupança. E isso pode resultar em juros muito mais altos.

Se os juros de longo prazo, descontada a inflação, voltarem à media de 40 anos, calcula a McKinsey, ficarão 1,5 ponto porcentual maiores, um salto considerável para o atual rendimento de mais ou menos 3% das obrigações do Tesouro americano com vencimento em dez anos. E os juros podem subir ainda mais se os mercados emergentes tentarem investir em infraestrutura e outras áreas mais rapidamente que a expansão geral da poupança nos EUA e em outros países ricos, o que geraria uma freada indesejável no crescimento mundial.


Fonte: Wall Street Journal
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