quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Como se proteger e surfar a onda da inflação.

Tirando os problemas financeiros em países da Zona do Euro, a volta da inflação no Brasil foi a principal surpresa negativa deste ano. O pujante crescimento econômico do país trouxe com ele o aumento dos preços. Apesar das medidas que o governo já tomou para conter o crédito, como o aumento dos depósitos compulsórios, a inflação deve continuar pressionanda, pelo menos enquanto não começar o aperto monetário. Se a inflação é negativa para a economia real, existem formas de o investidor se proteger do prejuízo. Um relatório da Itaú Corretoralista quais são os setores que mais perdem e os que mais ganham com o movimento inflacionário.
Os maiores perdedores são: papel, construtoras de baixa renda, empresas de diagnósticos, setor de educação, além das companhias aéreas. Já o grupo dos que se beneficiam é bem mais magro: apenas shopping centers e o setor de "properties", caracterizado por empresas que negociam terrenos e empreendimentos comerciais.
Segundo a estrategista de renda variável para pessoa física da Itaú Corretora, Cida Souza, isso não significa que vale a pena comprar as ações dos setores que ganham e vender aquelas de empresas que perdem. "A inflação é só mais um elemento que o investidor deve considerar dentro de sua análise para escolher em quais papéis aplicar, mas não deve ser o único, principalmente considerando que a inflação deve ficar sob controle em 2011", explica Cida.
No cenário de inflação controlada e continuidade do crescimento econômico, a Itaú Corretora mantém a recomendação de investimento em ações voltadas ao mercado doméstico, mas que também, de alguma forma, se defendam da alta inflacionária. As principais são: CCR, BR Malls, Hypermarcas, Pão de Açúcare Localiza.
Segundo o relatório da Itaú Corretora, diferentemente do que ocorreu em 2010, quando principalmente os alimentos afetaram os índices de preços, no ano que vem, os preços administrados - como o de energia elétrica e transporte público -, de serviços - como aluguéis -, de manufaturados no varejo - como os preços do algodão - e os salários devem pressionar a inflação brasileira.
Ou seja, as grandes perdedoras são as empresas em que os preços administrados, como energia, os aluguéis e os salários têm um peso importante dentro da estrutura de custos. Já as mais beneficiadas são as que possuem tais elementos contando a favor dentro da receita.
No caso do setor de papel, por exemplo, o gasto com salários representa 30% dos custos de produção e com energia, 13%. No segmento de educação, os gastos com pessoal são nada menos que 60% dos custos, o maior percentual entre todos os setores, e o aluguel dos imóveis, 8%, sem contar que a forte concorrência dificulta o repasse desses aumentos para os preços.

Já as construtoras de baixa renda que participam do programa Minha Casa Minha Vida perdem por não poderem ajustar os preços após o comprador assinar o contrato. No caso das empresas de diagnósticos, elas sofrem uma grande resistência dos planos de saúde para repassar a inflação. Por fim, nas companhias aéreas, o combustível é 35% dos custos, os salários, 20%, além da competição acirrada entre elas que não permite grandes repasses para as passagens.
Do lado vencedor, as empresas de shopping centers reajustam os aluguéis com base nos índices de preços, além do custo com pessoal ser bastante baixo. As empresas de "properties" têm essa mesma dinâmica.

Daniele Camba é repórter de Investimentos - Valor Econômico

Como ficam os investimentos com o novo governo.


 

Um novo governo assume o país a partir de janeiro. Mesmo sendo Dilma Rousseff uma presidente que representa a continuidade da atual gestão, um novo contexto se forma e deve receber a atenção dos investidores.
Para decidir em que investir, além de olhar os objetivos pessoais de curto, médio e longo prazos, o investidor também precisa avaliar o cenário econômico interno e externo. Algumas decisões e acontecimentos afetam diretamente a rentabilidade das aplicações financeiras e precisam ser consideradas previamente para que o investidor possa buscar o melhor desempenho.
Quando o assunto é renda fixa, o principal ponto de atenção é a trajetória da taxa de juros básica da economia. Seja para investimentos via fundos ou para a compra de títulos públicos via Tesouro Direto, a condução da política monetária é o que determina a rentabilidade das aplicações. Vale lembrar que, a partir de janeiro, o Banco Central também terá uma nova diretoria. Após oito anos de Henrique Meirelles no comando da autoridade monetária, Alexandre Tombini, atual diretor de Normas, assumirá o cargo.
Se a trajetória é de alta da taxa Selic, a recomendação é escolher fundos ou títulos públicos com juros pós-fixados. Nesse caso, a rentabilidade irá acompanhar a elevação das taxas e o rendimento será maior que o de títulos prefixados.
Esse é o cenário mais provável para a economia no começo de 2011. As expectativas já indicam aceleração da inflação e são praticamente unânimes as previsões de alta da Selic. As apostas indicam que, ao longo do próximo ano, a taxa básica da economia deve subir dos atuais 10,75% ao ano para 12,75%, ou seja, um aumento de dois pontos percentuais.
Assim, para quem esta na dúvida entre pré e pós-fixado, a recomendação é ficar com as opções pós-fixadas. Entre os títulos do Tesouro, uma boa opção são os papéis que pagam juros mais a variação do IPCA.
Quando a questão é investimentos em renda variável, é preciso acompanhar mais algumas variáveis. Além da conjuntura interna, acontecimentos internacionais afetam diretamente o comportamento do mercado acionário no Brasil e o desempenho das nossas empresas.
Diante do grande dilema cambial, a desvalorização global do dólar deve ser o centro das atenções do próximo governo nos primeiros meses de mandato. Medidas que ajudem a conter a valorização do real podem favorecer as empresas exportadoras. Já as empresas cujos negócios são direcionados principalmente para o mercado interno devem ser favorecidas pela continuidade do crescimento econômico e do aumento do consumo.
Mesmo com esse panorama, escolher entre as melhores opções no mercado de ações é sempre um desafio. Além do desempenho da empresa, das perspectivas para o setor e da conjuntura econômica, os objetivos pessoais são extremamente importantes para definir onde investir.
Quando falamos de um perfil conservador, as opções devem se concentrar na renda fixa. A recomendação é sempre dividir os recursos igualmente entre fundos de renda fixa e a compra direta de títulos públicos via Tesouro Direto. Mesmo com taxa de administração, os fundos de renda fixa podem garantir liquidez imediata, caso a pessoa precise resgatar os recursos de um dia para o outro.
Com um perfil moderado, o investidor já pode buscar algum risco principalmente em fundos multimercados. Porém, a recomendação é manter os recursos investidos por, pelo menos, um ano. Se o investidor já quiser direcionar parte dos recursos para ações, a recomendação é montar uma carteira de ações de empresas boas pagadoras de dividendos. Nesse caso, o objetivo não é apenas buscar a valorização na oscilação diária do papel, mas sim manter o investimento para receber parte dos lucros da empresa.
Companhias do setor elétrico, do setor de telecomunicações e bancos são boas pagadoras de dividendos e podem ser uma boa opção para investidores no próximo ano. Para uma visão mais de longo prazo, empresas dos setores de petróleo e mineração também podem ser boas alternativas para a diversificação dos investimentos.

Fonte: Valor Econômico

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

As lições que as passadas crises latinas oferecem à zona do euro

Contribuintes, investidores e formuladores de política estão ponderando nervosamente o futuro da zona do euro, dado o excesso de endividamento de várias das suas economias, como Grécia e Irlanda.


Suas preocupações são ampliadas pelo fato de não haver nenhum mapa do caminho com a forma como a crise poderia ser equacionada. A crise da dívida soberana da América Latina na década de 1980, porém, sugere que há. Numa década de definição para a região, muitos países se viram barrados nos mercados de capitais internacionais e ficaram inadimplentes depois de assumirem quantias insustentáveis de dívidas. A crise, que quase levou o sistema financeiro dos EUA a ficar de joelhos, só foi resolvida por meio do cancelamentos de dívidas.

Apesar de os dois continentes serem muito diferentes, as semelhanças entre as situações são impressionantes. Nos dois casos as dívidas foram emitidas em uma moeda sobre a qual os países tomadores não tinham nenhum controle. Na América Latina, essa moeda foi o dólar dos EUA. Para grandes tomadores europeus, como Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália, a divisa foi o euro.

As crises da dívida vieram depois de um período prolongado de crédito fácil. A Grécia tornou-se uma devedora entusiasmada na esteira da adesão ao euro, quando o país podia tomar empréstimos a taxas de juros quase germânicas. De forma semelhante, no fim da década de 1970, os petrodólares abundantes eram alegremente reciclados para empréstimos de "propósito geral" em países latinoamericanos que tinham tão poucos termos restritivos que os bancos dos EUA muitas vezes não sabiam para que propósito estavam emprestando. A intenção dos empréstimos consorciados, algumas vezes entre até 500 bancos, era de reduzir o risco. Mas não reduziu.

As duas crises coincidiram com uma recessão global, classificada como a pior desde a Grande Depressão. Em 1981, isso aconteceu depois que o presidente do banco central dos EUA, Paul Volcker, catapultou as taxas de juros dos EUA para 20%.

Um ano depois, o México anunciou que havia ficado praticamente sem reservas e não poderia mais servir US$ 80 bilhões em dívida externa, depois que os credores se recusaram a rolar empréstimos de curto prazo, exceto a taxas exorbitantes. O México requereu uma moratória, e solicitou apoio do governo e do Fundo Monetário Internacional (FMI).

A quebra em 2008 do Lehman Brothers foi o "momento de morte" comparável. Dois anos depois, Grécia e Irlanda solicitaram apoio oficial.

O que acontecerá a seguir na zona do euro não está claro. Mas se a experiência da América Latina continua válida, há três lições valiosas - e dolorosas.

Em 1982, a resposta inicial à crise da dívida da América Latina foi estimada como crescimento econômico, que acabaria possibilitando aos países reduzir o seu endividamento. Eles só precisavam de espaço para fazê-lo. Até 1985, muitos esperavam que o problema tivesse sido resolvido.

Foram necessários vários anos para compreender que deflacionar salários e encolher economias era incoerente com capacidade para quitação integral das dívidas. O que no começo pareceu ser um problema de liquidez era uma questão de solvência, como ficou claro em 1987, quando o Brasil anunciou que interromperia o pagamento de juros.


A resposta, portanto, foi perdão da dívida. Isso não aconteceu antes de 1989, sob os termos do plano Brady, assim chamado em homenagem ao então secretário do Tesouro dos EUA, Nicholas Brady.

Em troca da redução da dívida, a obrigação do banco era transformada em "títulos Brady" negociáveis de dois tipos amplos. O primeiro, "obrigações ao par", tinham o mesmo valor de face da dívida original, mas prazos de vencimento mais longos e taxas de juros mais baixas. O segundo tipo, "obrigações abaixo do par", tinham valor de face menores, mas também prazos de vencimento mais curtos e taxas de juros mais altas. Ambas eram respaldadas por títulos do Tesouro dos EUA como garantia, o que tranquilizou os investidores de que a dívida reestruturada tinha valor real. Enquanto isso, os países devedores se comprometeram com uma série de reformas, o chamado consenso de Washington. Dali em diante, persistiu uma formidável carga de dívida, mas não era mais uma crise.

Há quem diga que o plano Brady poderia ter vindo antes. Nesse caso, a América Latina não teria sofrido uma "década perdida", com receitas em queda nos anos de 1980, como alguns países da zona do euro correm o risco de sofrer. No entanto, tal como agora, o avanço à custa de erros é uma parte necessária do gerenciamento da crise. Ele concede tempo aos formuladores de política e aos mercados, para que possam avaliar o tamanho do problema. Mais importante ainda, confere tempo aos credores para acumularem reservas para absorver os prejuízos decorrentes da redução da dívida. Em 1982, os empréstimos a países em desenvolvimento, na sua maioria latinoamericanos, responderam por mais de duas vezes a base de capital dos bancos dos EUA, segundo o FMI. Reduções de dívidas precoces teriam sido impossíveis, portanto. Elas teriam produzido uma crise financeira sistêmica nos EUA.

Isso vale para a zona do euro hoje. Um cálculo aproximado mostra como. Os papéis dos bancos europeus estão sendo negociados em torno do valor contábil dos seus patrimônios. Considerando que a capitalização dos bancos europeus é €903 bilhões, isso indica que o capital total dos bancos é aproximadamente o mesmo.

Quanto à exposição, um número aproximado pode ser compilado a partir do Banco para Compensações Internacionais (BIS). O total de obrigações de bancos europeus estrangeiros sobre a dívida grega, irlandesa, portuguesa, espanhola e italiana é quase €1,8 trilhão. A exposição de bancos europeus à divida potencialmente problemática da zona do euro pode, portanto, ser de aproximadamente duas vezes o seu capital - comparável à dos bancos dos EUA na crise latinoamericana.

Isso se aplica especialmente nesse caso, à medida que a maioria dos bancos ainda não lança a dívida soberana nos seus livros a valor de mercado. Em meados da década de 1980, o valor médio dos empréstimos dos países em desenvolvimento no mercado secundário era de 65% do valor de face (o ponto mais baixo ocorreu em 1989, quando os preços caíram abaixo de 30%). Hoje, o título da dívida do governo grego é negociado a 68% valor de face, os títulos irlandeses a 74% e os portugueses a 87%. Se a cronologia latinoamericana continuar válida, então a crise do euro ainda tem vários anos de duração.

Qual seria o aspecto de um "plano Brady" da zona do euro?

O mecanismo seria inequívoco Os países ofereceriam um cardápio de títulos, de valor equivalente a uma fração das obrigações atuais. Tomemos o plano Brady como modelo, e os cortes podem não ser tão vastos. Países pequenos como Costa Rica obtiveram uma redução de 47%. Devedores maiores receberam muito menos: Uruguai somente 20% e o México, meros 12%. Mais importante foi que um acordo Brady conferiu credibilidade macroeconômica.

Esse ganho em credibilidade pode não funcionar hoje, levando-se em consideração o comprometimento mais extenso da Europa a mercados livres. Mesmo assim, numa situação equivalente, economias menores como a Irlanda poderiam obter grandes reduções. Países maiores e mais solventes, como Itália e Espanha, poderiam obter reduções menores.

Os novos títulos também precisariam ter atrativos colaterais. Aqui os "eurobônus" garantidos pela Alemanha poderiam desempenhar um papel semelhante ao dos títulos dos EUA que escoraram os bradies da América Latina na década de 1980.

Por fim, em 1989, a América Latina ainda devia grande parte da sua dívida aos mesmos credores de 1982. Hoje, as compras de títulos efetuadas pelo Banco Central Europeu (BCE) e os desembolsos feitos sob os termos da linha de crédito da estabilidade financeira, significam que os credores oficiais podem desempenhar papel maior na redução da dívida. Assim também fará a política. As lições que a América Latina oferece são sombrias. Mas há um consolo. Os bancos europeus estão cientes de que precisam reforçar mecanismos de controle de capital.
 
John Paul Rathbone

Financial Times - 23/12/2010, transcrito no jornal Valor Econômico

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Um alerta sobre bolha de crédito

O crédito bancário cresce acima da média histórica no Brasil e isso exige que os bancos brasileiros tenham um colchão de capital maior para enfrentar incertezas e cobrir eventuais perdas quando a economia desacelerar. É o que recomenda o Comitê de Basileia em documento sobre regras prudenciais para evitar nova crise bancária mundial. O Comitê examinou o crédito nas 26 principais economias do mundo e concluiu que o Brasil é um dos países com maior aquecimento no mercado de crédito, junto com Coreia do Sul e Cingapura.


Se a recomendação do Comitê for obedecida ao pé da letra, o Brasil terá de impor uma exigência extra de capital aos bancos equivalente a 2,5% dos ativos ponderados pelo risco. Hoje, o padrão internacional é de 8% e, no Brasil, de 11%, valores que estão sendo revistos.



O documento adiciona mais um ingrediente ao debate sobre o eventual superaquecimento do mercado de crédito no Brasil, que poderia levar à criação de bolhas. Nos últimos cinco anos, o crédito bancário ao setor privado saltou de 26,6% do PIB para 45,3%.

Segundo o Comitê , cabe a cada país fazer um exame de sua realidade para determinar o volume de capital para lidar com riscos cíclicos, mas usando os cálculos do Comitê como ponto de partida. O Banco Central do Brasil entende que a metodologia do Comitê não é suficiente para analisar um mercado de crédito que passa por transformação estrutural, como o brasileiro.



O Comitê de Basileia é um organismo que cria regras para manter a solidez do sistema bancário mundial. Era um clube restrito aos países ricos até que a crise bancária levou à admissão de novos sócios, incluindo o Brasil. Nos últimos anos, a instituição discute novas regras para fortalecer o sistema bancário, conhecidas como Acordo de Basileia 3. Os acordos anteriores, Basileia 1 e Basileia 2, não foram suficientes para evitar que os bancos assumissem riscos excessivos que levaram à crise. Em geral, os bancos expandem muito o crédito quando as economias crescem e acabam negligenciando os riscos da desaceleração.


Na quinta-feira, o Comitê divulgou documento que aponta quanto o crédito em cada país está aquecido, para então determinar o capital extra que os países deverão manter para enfrentar o risco de recessão. No caso brasileiro, em 2009 o volume de crédito estava cerca de 14% do PIB acima do que era de se esperar se os empréstimos seguissem sua tendência histórica.

Mudança estrutural do país dá segurança ao crédito, afirma BC


O Banco Central do Brasil reconhece que o crédito bancário vem crescendo fortemente, como apontado pelo Comitê de Basileia, mas pondera que o Brasil passa por uma transformação estrutural nos últimos anos que faz com que o baixo volume de empréstimos se aproxime mais dos padrões internacionais.

A queda da inflação, a nova lei de falências, as novas garantias para o crédito imobiliário e a criação do crédito consignado são fatores que, na visão do Banco Central, permitem que os empréstimos bancários se expandam a taxas mais robustas de forma mais segura.

Segundo o BC, o próprio Comitê da Basileia recomenda que, ao estabelecer colchões de capital para lidar com o risco cíclico, os reguladores devem levar em consideração as condições particulares de cada país. As recentes transformações estruturais fazem do Brasil um caso especial, na avaliação do BC.

No seu documento, o Comitê de Basileia recomenda a criação de colchões de capital com base na média histórica. Ou seja, observa como foi a evolução do crédito em anos anteriores e, a partir desses dados, projeta qual seria uma trajetória razoável e segura para o futuro.

O problema de olhar apenas para os dados passados, porém, é que essa tecnica não permite incorporar mudanças de tendência provocadas, por exemplo, pelo fortalecimento da regulação do crédito.

"A consolidação da estabilidade macroeconômica e as reformas microeconômicas representam mudanças estruturais, que permitiram que o mercado de crédito brasileiro se desenvolvesse nos últimos anos", declarou o BC por meio de um e-mail, atendendo a pedido do Valor.

"A relação crédito/PIB é ainda relativamente baixa no Brasil. No caso do crédito imobiliário, especificamente, a nossa relação é inferior a 5% do PIB, menor do que a relação de outras economias emergentes, como México, África do Sul e Chile, e bem inferior a de países desenvolvidos como EUA, Inglaterra e Holanda."

O BC diz que o colchão de capital anticíclico é apenas uma das muitas medidas prudenciais que estão à disposição das autoridades reguladoras. "O BC monitora ativamente a acumulação de riscos no sistema e toma as medidas que lhe parecem mais adequadas" firma a instituição. "A acumulação de riscos, por exemplo, pode não ocorrer no sistema como um todo, mas em setores específicos."

Recentemente, diz , o BC identificou o aumento do risco na extensão do prazo das operações e aumento da parcela financiada no crédito a pessoas físicas, e por isso determinou o aumento do requerimento de capital de algumas operações

De Alex Ribeiro - Valor Econômico

Crise nos EUA apresenta dados questionáveis.

O fato de nenhum dos executivos que ajudaram a colocar o sistema bancário e a economia dos Estados Unidos de joelhos ter sido condenado já era ruim o bastante. Agora, o Departamento de Justiça está perseguindo números inventados para mostrar que está sendo linha-dura com as fraudes financeiras.
No início deste mês, o procurador-geral dos EUA, Eric Holder, concedeu uma entrevista para elogiar os resultados da "Operação Confiança Quebrada", que ele classificou de "um passo muito importante no trabalho de fiscalização da lei para proteger os investidores americanos".
Holder disse que a varredura feita pela Força-tarefa de Fiscalização das Fraudes Financeiras do presidente Barack Obama, iniciada em 16 de agosto, resultou em 231 casos contra 343 acusados de crimes até 1º de dezembro. No total, houve 64 prisões, 158 acusações formais ou queixas, 104 condenações e 87 julgamentos. A operação também levou a 60 ações civis contra 189 acusados.

As estatísticas parecem estranhas. Alguns desses casos tiveram início anos atrás, bem antes da força-tarefa multiagência ser formada. Também é óbvio o que os promotores fizeram aqui. Primeiro, eles localizaram todos os pequenos esquemas Ponzi, fraudes de afinidade e fraudes envolvendo ações de empresas de baixo valor de mercado que avançaram nos tribunais de Justiça americanos desde a metade de agosto. Em seguida, eles somaram tudo, juntando casos que não tinham nada a ver uns com os outros.

Apenas por curiosidade, eu perguntei à porta-voz do Departamento de Justiça, Alisa Finelli, os nomes dos casos. Ela me enviou uma lista de 16 páginas dos acusados. (Após dizer inicialmente que os nomes dos réus civis não estavam disponíveis, ela me enviou os nomes.) A primeira página da lista criminal tinha 20 nomes, que, segundo percebi, era um bom exemplo para a escolha de casos para se dar uma olhada. Logo ficou claro que a lista não estava totalmente correta.

Por exemplo, a lista dizia que Lorenzo Altadonna havia sido condenado no Distrito Oeste de Nova York em 27 de outubro. Na verdade, ele foi sentenciado a três anos com liberdade condicional em 5 de agosto, segundo mostram os registros da corte. Isso foi 11 dias antes do início da Operação Confiança Quebrada, o que significa que a força-tarefa não deveria tê-lo incluído em seus resultados, mesmo com sua metodologia confusa. Finelli disse que Altadonna foi incluído por engano.

A primeira página da lista também mostrou uma condenação federal em Nova Jersey, em 8 de novembro, de um homem cujo nome não vou citar aqui. Não havia registro sobre ele no Pacer, que é o banco de dados on-line do governo sobre os procedimentos das cortes federais de Justiça. Mas encontrei um artigo de 13 de outubro no "Daily Recorde" de Parsippany, Nova Jersey, sobre uma fraude em uma agência de seguros onde uma pessoa com o mesmo nome havia trabalhado. O artigo dizia que ele não foi acusado criminalmente. Finelli não quis dizer por que ele foi incluído na lista da força-tarefa.

Portanto, dos 20 casos no topo da lista de acusados, dois não haviam sido investigados minuciosamente. Outros réus incluíam Lee Anglin, que foi sentenciado em 16 de novembro. Registros da corte mostram que ele foi preso em março de 2006 e condenado em julho de 2009. A força-tarefa não teve nada a ver com sua prisão.

Outro acusado, Anthony Antonelli, foi sentenciado em 7 de setembro. Registros da corte mostram que ele fez acordo com promotores para se declarar culpado em janeiro de 2009. A lição aqui é: a Justiça tarda, mas não falha.

Escolhi aleatoriamente alguns nomes nas outras páginas da lista. Um deles era um sujeito de Illinois chamado Kevin Carney, que se declarou culpado em 18 de agosto, em um tribunal do Circuito de Cortes de Justiça de Cook County, de acusações de fraude e roubo, segundo comunicado emitido pelo gabinete do procurador-geral de Illinois, que levou o caso a juízo. Isso foi só dois dias depois do início da Operação Confiança Quebrada.

O diretor-executivo da força-tarefa, Robb Adkins, disse em uma entrevista que o objetivo do anúncio neste mês foi aumentar a conscientização do público em relação a esses tipos de fraude e "enviar uma mensagem aos aspirantes a malfeitores". Ele disse que "houve esforço grande e detalhado para seguir a trilha dos números" e que não queria que ninguém pensasse que a força-tarefa estava tentando ficar com os méritos das investigações que começaram antes.

Quando eu perguntei a ele por que o governo não havia levado a juízo nenhum executivo graduado dos bancos que estiveram no centro da crise, ele disse: "Onde houver delitos a lei vai agir, mas não posso comentar nada além disso".

Parece que o Departamento de Justiça ou não quer levar a juízo fraudes importantes do ponto de vista sistêmico ou não sabe como fazer isso. Talvez seja as duas coisas. Mas nem sempre foi assim. Mais de mil condenações por crimes seguiram-se ao escândalo das sociedades de crédito imobiliário da década de 80 e começo de 90. Alguns dos cabeças, como Charles Keating, da Lincoln Savings & Loan, foram à prisão. Na crise financeira mais recente, parece que não está havendo essa prestação de contas à sociedade.

Operação Confiança Quebrada pode ser um nome apropriado. Infelizmente, pelos motivos errados. A população já sabe que não deve confiar no governo. Truques de relações públicas disparatados com esse pelo menos nos oferecem um lembrete do motivo. (Jonathan Weil é colunista da Bloomberg)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Mercado de capitais e o financiamento de longo prazo.

Para crescer 5% ao ano de forma sustentável, o Brasil deve investir algo como 22% a 25% do Produto Interno Bruto (PIB). Nos últimos 16 anos, a taxa de investimento ficou em 17% do PIB, o que significa que temos um hiato de 2% a 3%. Ou seja, precisamos aumentar o investimento em algumas centenas de bilhões de reais ao ano. A maior parte desse investimento deve ir para a construção residencial e infraestrutura, incluindo os projetos relacionados à Copa e à Olimpíada. São setores que demandam financiamentos de prazo longo e sujeitos a riscos complexos - de crédito, de mercado e regulatórios.
Essas características levaram o setor público a ocupar-se do financiamento dessas atividades. Mas essa solução se torna cada vez mais difícil, seja pelo volume de recursos, seja pela necessidade de o governo focar sua atuação em outras áreas.

Temos dois desafios distintos a superar para permitir o aumento do investimento e alongamento de prazos. Primeiro, a origem dos recursos. O Brasil poupa pouco e é preciso ver o que o país fará para viabilizar essa a expansão do investimento. Poupará mais domesticamente ou fará uso da poupança externa? Segundo, como fazer para que a poupança chegue aos setores prioritários em condições adequadas de prazo e custo?

A resposta ao primeiro desafio deve vir na forma de maior esforço de poupança doméstica, mas também do uso de recursos externos. Podemos poupar mais domesticamente e o setor público é o principal candidato a incrementar seu esforço nesse sentido. No entanto, parte da poupança incremental será externa. Nosso desafio é canalizá-la para o investimento, em lugar apenas de substituir a poupança doméstica.
Já temos no Brasil a experiência e as instituições para enfrentar o segundo desafio. O mercado de capitais é o melhor caminho para atingir o objetivo de mobilizar e alocar recursos a custos adequados. Mas é necessário promover mudanças, em especial no segmento de renda fixa privada. Há duas barreiras principais ao desenvolvimento desse mercado, em especial no que tange aos investimentos em infraestrutura e construção: prazo e custo.

O longo prazo desses investimentos não é um desafio intransponível. De um lado, porque há investidores institucionais, como fundos de pensão, seguradoras e fundos de private equity, que têm estrutura de passivos compatíveis com o longo prazo. De outro lado porque, desde que se conte com um mercado secundário líquido e precificado com transparência, o fato de o prazo ser longo não se traduz na necessidade de o investidor ficar preso à operação por igual período.

O elevado retorno exigido pelos investidores é um desafio maior. Ele reflete pelo menos três fatores. Primeiro, a elevada taxa básica. Esta não só coloca um piso para o emissor, como também dificulta a formação de uma curva longa para os papéis públicos que sirva de referência para as emissões privadas. Alguns consideram que reduzir a Selic nominal abaixo de, por exemplo, 10% seja uma condição necessária para o desenvolvimento do mercado de renda fixa privada. Esse é um elemento importante, mas as iniciativas nessa área não devem nem podem esperar que isso ocorra. Há grandes empresas no Brasil cujo risco não é tão maior que o da República e que poderiam ampliar suas emissões domésticas em um contexto institucional mais favorável.

O segundo fator que explica a alta exigência de retorno são os riscos mais altos dessas operações - de crédito, juros, liquidez e regulatório. Esses são elementos que estão presentes em países onde esses mercados são pujantes e podem ser trabalhados promovendo-se a transparência, a qualidade da governança das empresas, o desenvolvimento de mercados de derivativos e o aprofundamento da liquidez do mercado secundário.

Finalmente, temos o peso e a estrutura da tributação sobre a intermediação que, pelas suas características, em termos da transparência da base de tributação e do papel cumprido pelas instituições financeiras em auxiliar o fisco na arrecadação de tributos, penalizam com uma carga tributária elevada.

Se por um lado esses fatores mostram o tamanho dos desafios que serão enfrentados, por outro, eles apontam para a oportunidade de desenvolvermos um mercado que se torne peça fundamental para ajudar o país a resolver o gargalo do financiamento. Temos hoje um cenário extremamente favorável para começar a desatar esse nó.

As medidas anunciadas na semana passada pelo governo são um passo correto e importante nesse sentido. Tanto o setor público quanto o setor privado concordam em relação à necessidade e à conveniência de o mercado de capitais tornar-se o principal canal provedor de recursos para o financiamento incremental necessário nos próximos anos.

Na Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) desenvolvemos uma agenda de iniciativas que, na visão das instituições que atuam no mercado de capitais, podem contribuir para consolidar seu papel de provedor de funding para nossas empresas e projetos de longo prazo. Entre elas, estão o incentivo à participação do investidor estrangeiro no segmento de títulos privados e a criação do Novo Mercado de Renda Fixa no Brasil.
Os investidores estrangeiros deveriam ter o mesmo tratamento tributário quando investem em títulos de renda fixa do setor privado e do setor público. Esta seria uma forma de dar escala e liquidez para esse mercado, assim como de facilitar o alongamento de prazos.

Por fim, mas não menos importante, devemos desenvolver plataformas e regras diferenciadas para a negociação de papéis de renda fixa de alta qualidade, criando o Novo Mercado de Renda Fixa. A emissão no Novo Mercado de Renda Fixa exigirá regras mínimas de governança, transparência e padronização, de forma a dar liquidez e transparência de preço ao mercado secundário, além de segurança ao investidor.

Esse conjunto inicial de propostas é resultado de amplo debate realizado com os representantes dos setores público e privado. São iniciativas que podem contribuir para que o mercado de capitais seja capaz de mobilizar e alocar os recursos adicionais necessários para viabilizar o crescimento acelerado e não inflacionário que os brasileiros almejam para os próximos anos.

Marcelo Giufrida é presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Ano de ajuste no mercado financeiro

Em breve estaremos comemorando um novo ano. Como sempre acontece nesse momento, cada um de nós vai usar uma referência com o passado para tentar qualificá-lo. Para muitos, 2011 pode ser identificado como o primeiro ano em que o presidente Lula não estará mais no comando da nação. Para outros, 2011 encerra um período ainda mais longo: 16 anos em que o Brasil decidiu romper com um passado de desorganização e trilhar com sucesso o caminho da responsabilidade na gestão da economia.


Independente da paternidade desse período de inequívoco sucesso na economia, os avanços alcançados estão à vista de todos. Por exemplo, sexta-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que a taxa de desemprego em novembro ficou bem abaixo da marca dos 6% da população economicamente ativa. Esse indicador é certamente a prova mais importante desses novos tempos que estamos vivendo.

De um lado o desemprego baixo só pode ser alcançado de forma perene por uma economia que funciona com eficiência e competitividade. De outro, é com níveis elevados de emprego que o cidadão recebe os benefícios do desenvolvimento econômico. E o desemprego menor do que 6% da população economicamente ativa como divulgou o IBGE - em dezembro este número pode chegar a 5% - é muito bom, principalmente em um país com carências de educação e formação como o Brasil.

Mas, para mim, o novo ano vai ter outra marca que pode fazer dele um período muito importante para a economia mundial. Estou convencido que em 2011 finalmente a maior economia do mundo voltará a viver dias de normalidade, rompendo com quase quatro anos de crise e incertezas. Os sinais são claros e sobre eles escrevi no nosso encontro de novembro passado. Hoje quero especular um pouco sobre os efeitos de curto prazo que essa normalização pode criar nos mercados nos próximos meses.
Quando se olha para a economia americana com uma visão mais otimista - um crescimento de 3,5% a 4% em 2011 e 2012 - o que mais chama a atenção é o descompasso entre a política monetária do Fed e essa nova dinâmica. Não sou monetarista histriônico, mas essa divergência claramente vai ser cobrada com razão pelos mercados no futuro próximo.

O início da normalização das condições monetárias nos EUA - interrupção do programa de compra de títulos do governo e especulações sobre o momento de elevação dos juros de curto prazo - vai ser o grande evento nos mercados financeiros no mundo todo, talvez ainda no primeiro trimestre do ano. E faço essa afirmação em função de três grandes ajustes que esse movimento da autoridade monetária americana vai provocar.
O primeiro virá com a volta dos juros americanos a níveis de normalidade, ou seja, algo entre 4% e 5% ao ano para os papéis de prazos mais longos. Além disso, com o risco de um novo mergulho na recessão definitivamente afastado e a economia dando sinais de que a recuperação da atividade pode se consolidar nos próximos anos, o Fed vai ter de enfrentar o desafio de quando iniciar o processo de normalização dos juros de curto prazo. Como o desemprego ainda será elevado por algum tempo e, em várias áreas, existe ainda uma razoável capacidade ociosa, este movimento deve ser suave. Mas sabemos como são os mercados: se o Fed errar no timing, as expectativas de inflação podem superar em muito os 2% ao ano, o que seria um evento traumático.
O segundo ajuste ocorrerá em função das mudanças nas condições de oferta e procura nos mercados de títulos de crédito. O aumento das emissões de papéis privados - bancários ou não - que se seguirá à volta do crescimento vai ocorrer em paralelo à grande oferta de títulos do governo por conta dos elevados déficits dos últimos anos e de um maior estoque de dívida pública em relação ao PIB que existe hoje. Essa concorrência por recursos poderá ser fonte de pressão altista nos juros mais longas.
A terceira alteração nas condições dos mercados poderá vir de um ajuste mais traumático nas carteiras de um grande número de investidores. A crise financeira já é bastante longa para moldar o comportamento dos investidores e levá-los a buscar alternativas mais especulativas e perigosas em seus investimentos. Os mecanismos para isso são conhecidos por todos nós. Compra de títulos de crédito com alavancagem elevada viabilizada pelo nível muito baixo dos juros de curto prazo. Um exemplo é a compra de papéis de sete a oito anos com financiamento de um ano com juros equivalentes à taxa interbancária de Londres (Libor).
Essa é uma combinação que já aconteceu no passado e que levou a crises sérias quando a bolha arrebentou. A combinação de uma correção no valor dos títulos de crédito por conta de juros maiores e a elevação das taxas de curto prazo pode gerar prejuízos expressivos. Tenho medo de que isso possa ocorrer novamente desta vez.
A normalização dos juros americanos pode provocar ajustes além dos que vão ocorrer nos mercados de títulos de crédito. Mais uma vez a crise nos Estados Unidos provocou uma migração expressiva de recursos para outros mercados, principalmente no chamado mundo emergente. Esse movimento valorizou as moedas desses países e levou os preços das ações de empresas locais a níveis elevadíssimos. Com a volta de parte desses recursos para os mercados americanos podemos ter um período difícil de ajuste.

Luiz Carlos Mendonça de Barros , engenheiro e economista, é diretor-estrategista da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações.

Em busca do Brasil de longo prazo

Se há um consenso entre os economistas brasileiros é o de que o país tem poupança insuficiente, um baixo nível de investimentos e uma preferência doentia pelo curto prazo. Daí a boa receptividade, ainda que acompanhada de certo ceticismo, com que se recebeu, na semana passada, o pacote de medidas do governo para estimular o financiamento privado a investimentos de longo prazo, reduzir a inadimplência do setor rural e incentivar o mercado de títulos vinculados a créditos imobiliários. Não há dúvidas sobre a necessidade das medidas; a questão é se serão eficazes e suficientes.

O conjunto de medidas anunciado na quarta-feira combina mudanças legais para facilitar a emissão e transação de títulos de longo prazo. Para isso, prevê redução de impostos que, pelos cálculos do Ministério da Fazenda, deve representar uma renúncia de R$ 162 milhões em receitas do governo federal no primeiro ano. A intenção é canalizar até R$ 350 bilhões em recursos do setor privado para financiamentos de prazos mais longos. É parte do total necessário para assegurar a meta de elevação do nível de investimentos, dos atuais 19% para 23% do Produto Interno Bruto (PIB). O que não for obtido com o mercado de capitais seria garantido com o reinvestimento dos lucros das empresas.

Explícito nas medidas do governo está o recado de que a tradicional carência de financiamento de longo prazo no Brasil não poderá mais ser atendida pelo Estado, como nos últimos anos, em que o Banco Nacional Econômico e Social (BNDES) foi convocado para dar o fôlego requerido aos investimentos no país, amparado pelas mãos generosas do Tesouro Nacional. O BNDES manterá um papel importante, porém, autorizado a emitir letras financeiras para complementar com recursos do mercado privado suas fontes de financiamento. E decidido a emitir, ele próprio, debêntures com taxas prefixadas da BNDESPar.

O BNDES também terá participação no fundo a ser criado para comprar e vender, no mercado secundário, os títulos de longo prazo destinados a investimentos em infraestrutura e compra de máquinas e equipamentos. E, para estimular o setor privado a consolidar um mercado secundário para os novos papéis de longo prazo, vai oferecer títulos de sua carteira para aluguel, por instituições financeiras interessadas em se tornar "formadoras de mercado". Foi a maneira encontrada de estender o horizonte dos financiamentos, operando em um mundo de expectativas de ganho imediato e de incertezas remanescentes.

No esforço para estimular o financiamento privado, o governo deixou de lado a preocupação com o ingresso de moeda estrangeira, que tem sustentado a cotação valorizada do real e minado a competitividade das exportações brasileiras: até os investidores estrangeiros foram brindados com a redução de impostos - para zero no caso de pessoa física e para 15% no de pessoa jurídica para debêntures e projetos de infraestrutura. As pessoas físicas não residentes não pagarão imposto em títulos de longo prazo com certas características fixadas pelo governo.

O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, teve a sinceridade de dizer que o êxito das medidas dependerá de uma política econômica capaz de reduzir as taxas de juros dos títulos públicos, aplicação cheia de garantias e muito bem remunerada que compete deslealmente com as alternativas de investimento - e que continuará competindo, enquanto o Comitê de Política Monetária (Copom) não tiver confiança para baixar as taxas. É evidente, ainda, que a adesão do setor privado à tarefa de financiar as perspectivas de longo prazo do país não será capaz de dispensar a presença do BNDES, que já prepara um novo pedido de recursos ao Tesouro, algo da ordem de R$ 60 bilhões.

Coutinho poderia comentar também outro requisito que sabe ser indispensável para estimular o setor privado a financiar, no volume necessário, as obras de grande porte demandadas pelo país. Sejam as obras destinadas à Copa do Mundo e à Olimpíada, sejam as exigidas para reduzir o fosso de competitividade em que se afunda a indústria brasileira, esses investimentos exigem mecanismos de garantia e de seguro de longo prazo que ainda não são suficientemente disponíveis no Brasil. Esse anúncio e o reforço do BNDES, o governo Lula deixa entre os restos a pagar, na conta da presidente Dilma Rousseff.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A educação no Brasil e na China

Foram divulgados na semana passada os resultados do Pisa 2009, o Programme for International Student Assessment, da responsabilidade da OCDE, com o desempenho dos alunos de vários países nos exames de proficiência em leitura, matemática e ciências. Esses resultados são muito aguardados pelos países participantes pois revelam como está o aprendizado dos alunos com 15 anos de idade, fazem um ranking de países e mostram sua evolução ao longo do tempo. O que mostram esses resultados?

A grande surpresa deste ano foi o desempenho dos estudantes da província chinesa de Xangai, que participaram pela primeira vez do exame e obtiveram um desempenho espetacular. Os estudantes chineses ficaram em primeiro lugar em leitura, matemática e ciências, superando todos os países da OCDE e os demais países participantes. Em matemática, os chineses obtiveram 600 pontos, quase 38 pontos acima do segundo colocado (Cingapura), 113 pontos acima do Estados Unidos e 214 pontos acima da média dos alunos brasileiros. Se compararmos os alunos de Xangai com os do Distrito Federal (a unidade brasileira com melhor desempenho), a diferença é de 175 pontos. Alguém ainda tem dúvidas de que os chineses irão dominar o mundo?

O desempenho dos alunos brasileiros continua muito ruim, mas vem crescendo ao longo dos anos. Entre os 65 países que participaram do exame, o Brasil ficou em 57º lugar em matemática. Para termos uma ideia de quão crítica é a nossa situação, 70% dos alunos brasileiros estão no nível mais baixo de desempenho em matemática, em comparação com apenas 4,8% dos alunos de Xangai e 8,1% dos coreanos. Em relação aos nossos vizinhos sul-americanos, os alunos brasileiros obtiveram um desempenho em leitura parecido com os colombianos, acima dos argentinos e peruanos, mas abaixo dos chilenos e uruguaios. E pensar que os argentinos estavam entre os povos mais educados da América Latina no início do século passado.

Entre 2000 e 2009 o desempenho dos alunos brasileiros aumentou 16 pontos em leitura, 52 pontos em matemática e 30 pontos em ciências. Assim, o maior avanço foi em matemática, disciplina em que os alunos brasileiros tinham o pior desempenho. Mas, é preciso aumentar o ritmo desse avanço, caso contrário levaremos 40 anos para alcançar o desempenho atual dos chineses. Outro ponto importante é que o nosso aumento da proficiência em leitura ocorreu às custas de uma maior desigualdade. Enquanto o desempenho dos nossos melhores alunos aumentou cerca de 30 pontos, entre os piores praticamente não houve melhora.
Assim, a desigualdade na qualidade da educação está aumentando. Vale notar também que grande parte do avanço obtido em leitura ocorreu entre as meninas, sendo que o crescimento da nota entre os meninos foi insignificante.

Vale a pena contrapor a nossa evolução educacional com a ocorrida no Chile. Em leitura, por exemplo, o desempenho dos alunos chilenos aumentou 40 pontos, mais do que o dobro dos brasileiros. Entretanto, no caso do Chile o desempenho aumentou mais entre os piores alunos do que entre os melhores. Assim, a qualidade da educação no Chile melhorou com queda na desigualdade, o melhor dos mundos. Por fim, a melhora ocorreu tanto entre os meninos como entre as meninas. Mas, que políticas educacionais tiveram efeito tão positivo no Chile?

Segundo o relatório do próprio Pisa, as principais políticas parecem ter sido o foco nas escolas com pior desempenho, o aumento do número de horas-aula, mudanças no currículo nacional, aumento dos gastos com educação e avaliação completa do desempenho dos professores das escolas públicas, incluindo observação do seu desempenho em classe. Os professores que forem reprovados três vezes nessa avaliação são demitidos. Além disso, as escolas e os professores com melhor desempenho recebem mais recursos e maiores salários. Aumento de gastos com mais horas-aula, acompanhado de medidas que introduzam a meritocracia na vida escolar parece ser a receita para o sucesso.

Em suma, o desempenho dos alunos brasileiros vem melhorando na última década, graças a uma série de políticas educacionais corretas que foram sendo introduzidas por diferentes ministros, no sentido de descentralizar a gestão, criar sistemas de avaliação, divulgar os resultados das avaliações por escola e estabelecer metas para cada uma delas. Além disso, inovações nas redes estaduais e municipais de educação, principalmente aquelas com ênfase na meritocracia, tiveram um papel importante.

Entretanto, esse avanço tem ocorrido de forma lenta e puxado pelo desempenho dos melhores alunos e das meninas. Assim, enquanto a desigualdade no acesso à educação está declinando e puxando para baixo a desigualdade de renda, a desigualdade na qualidade da educação caminha no sentido contrário, o que retardará a queda na desigualdade de oportunidades.

Por fim, os resultados do Pisa mostram claramente que os chineses estão fazendo a sua lição de casa, obtendo avanços significativos nas questões mais fundamentais da sua sociedade, para torná-la mais competitiva. Enquanto isso, os brasileiros passaram o ano inteiro discutindo a taxa de câmbio!


Naercio Menezes Filho é professor Titular - Cátedra IFB e coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper e professor associado da FEA-USP

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Vivendo para ver uma possível moratória desordenada!


Falar de um padrão europeu nos mercados continua a ser turbulento antes do Conselho Europeu de Dezembro, a reunião de 16-17.
Por enquanto o Banco Central Europeu tem mantido a zona do euro com uma unidade através da compra de títulos dos países membros e fornecimento de  liquidez para os bancos em dificuldades. Embora as soluções sejam paliativas, tais como os resgates analisados caso a caso, elas são o caminho de menor resistência política e vale o esforço para evitar a inadimplência de vários membros, que poderiam ser calamitosas.
A recente moratória da Argentina é ilustrativo. Como na Europa de hoje, os políticos argentinos descartaram a reestruturação de dívidas que pareciam incontroláveis. Domingo Cavallo, o respeitado ministro das Finanças da Argentina, ainda levou para as páginas do "Financial Times" que a idéia de reestruturação era "ridícula" e prometeu que "a Argentina não seria atraída pelo apelo das sereias". E assim, ao longo de 2001 o país tentou manobras cada vez mais desesperadas e dois empréstimos do FMI, para evitar o calote.
Após grande atrito mercado finalmente venceu, e o fracasso para reestruturar dívidas da Argentina mais cedo "acabou sendo um erro", como Nouriel Roubini, um estudioso do FMI em visita na época, posteriormente reconheceu. A luta cara levou a um maior trauma econômico e maiores perdas de títulos no final, para não falar de disputas judiciais prolongadas.
Naturalmente, a moratória da Argentina só foi inevitável  em retrospectiva, e os líderes da zona do euro não podem ser tão certa de seu destino. No entanto, é importante para a UE  empenhar-se com uma possível necessidade de reestruturação da dívida de forma planejada e sistemática, porque a alternativa, "de um acidente de trem em câmera lenta terminando em moratória desordenada", seria muito mais perigoso. Quando se trata da reestruturação da dívida, o conselho MacBeth continua a ser verdadeiro: "se fosse feito quando está feito, então estaria tudo bem...se fosse feito rapidamente. "
Infelizmente, a lógica da política incita uma negação padrão. Mesmo se os atrasos aumentam o risco de uma moratória desordenada, os líderes europeus terão dificuldade para aceitar os certos e  conhecidos danos de reestruturação da dívida, enquanto ainda há esperança, embora remota, de evitá-la. Necessário ou não, é provável que a decisão de moratória esta chegando ao fim da carreira, que encurta horizontes de tempo dos  políticos e incentiva os riscos ara apostas do tipo "tudo ou nada" (como com a desvalorização Grã-Bretanha na quarta-feira Negra).
Em teoria, a criação de um mecanismo estrutural para encerrar dívidas soberanas de uma forma ordenada ajudaria a aliviar este problema. Mas parece impossível a implementação desse plano no meio da crise, pois qualquer dica de reestruturação pode desencadear ansiedades do mercado e assim iniciar uma moratória desordenada como mostrado pela reação à sugestão de Angela Merkel para a incorporação de reestruturação da dívida em resgates futuros .
Uma moratória da zona do euro, desordenada ou não, vai reverberar em todo o mundo. A quebra da ilusão da Europa de responsabilidade fiscal causaria uma re-avaliação dos encargos de outros países desenvolvidos com um fardo de dívidas e assim as dívidas soberanas do mundo rico deixariam de ser tratados como" sem risco ". Na verdade, esta re-avaliação pode estar já em curso : durante o mês passado, os rendimentos do Tesouro de 10 anos aumentaram cerca de um quarto, para 3,3%, os rendimentos britânicos estão acima de 3,5%, e até mesmo os rendimentos de títulos alemães pairam em torno de 3%.
Talvez o mais importante, a moratória de uma nação européia relativamente boa poderia legitimar a reestruturação da dívida como uma opção política em mercados emergentes. Se os países de primeiro mundo são vistos como tendo o caminho mais fácil, não é difícil imaginar que no futuro os países em desenvolvimento estarão menos propensos a uma reestruturação dolorosa para pagar suas dívidas. A infâmia da moratória desempenha um papel fundamental na manutenção países de renegar as suas obrigações, às vezes, como no caso da Argentina, por muito tempo, e corroendo essa reputação de dissuasão irá levar o mundo a ter taxas de juros mais alta.
Fonte: The Economist

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Create a Paycheck in Retirement With a Total-Return Approach

We've frequently debated income versus total-return approaches during the past few years, with partisans weighing in on both sides of the debate. I've made no secret of my own totalnik leanings, noting that investors who are fixated on generating current income from their portfolios are often taking on disproportionate risks.

But there's an area in which incomeniks have it all over the totalniks, and that's in ease of implementation in retirement. By using an income-oriented approach, you can create the equivalent of a steady paycheck in retirement (or attempt to, anyway). But tapping your principal periodically, as you're required to do with a total-return approach, isn't just psychologically difficult. It's also a logistical headache. You have to figure out which accounts to tap for cash, which in turn affects where you're holding liquid assets, and you also have to figure out how to tap your accounts in the most tax-efficient manner possible. Given that, it's no wonder that so many retirees are attracted to investments that kick off current income.

Of course, annuities have long held appeal to those seeking to generate a paycheck in retirement. But with interest rates as low as they are now, annuity payouts are also depressed. Financial-services firms have been busy cooking up new investment products to help retirees generate a paycheck in retirement; many of them combine investments with insurance features. It's early days for most of these vehicles, however, and at this point, it's tough to give a ringing endorsement to any one option within this relatively untested group. Moreover, many investors are satisfied with their current investment portfolios; they're just not sure where to turn for cash when they need it.

That's where the bucket approach to retirement planning can be so effective. Retirement theoreticians often consider bucket strategies as too simplistic, but the concept resonates with many real-life retirees and the financial advisors who work with them. The basic idea is that you create a dedicated pool of assets, composed of cash and other very liquid holdings, to meet your near-term income needs. Once you've done that, you can hold those assets that you don't need to fulfill near-term living expenses in progressively more aggressive investment vehicles.

Such a strategy helps ensure that you're taking money from your most stable pool of assets first, and therefore you won't have to withdraw from your higher-risk/higher-return accounts (for example, those that hold stocks or more-risky bonds) when your account is at a low ebb. That strategy also gives your stock assets, which have the potential for the highest long-term returns, more time to grow.

Here's how to use a total return "bucket" approach to meet your own in-retirement cash needs.

1. Determine the Paycheck You Need From Your Portfolio
If you're attempting to create the equivalent of a paycheck from your portfolio, the first step is to gauge your income needs during retirement, either on an annual or a monthly basis. Start by tallying your total expenditures, then subtract steady sources of income that you can rely on, including Social Security and pension income. What's left over is the amount that you'll need to extract from your portfolio each month or each year.

2. Make Sure Your Withdrawal Rate Is Sustainable
The next step is to evaluate whether your desired portfolio withdrawal amount is too large or just about right. Most financial planners consider a 4% annual withdrawal rate, combined with annual upward adjustments to accommodate inflation, a safe withdrawal amount.

3. Put in Place a Short-Term Bucket Holding of at Least Two Years’ Worth of Living Expenses
Assuming your desired withdrawal rate is sustainable, set up a short-term bucket consisting of at least two years' worth of living expenses set aside in highly liquid (that is, checking, savings, money market, and certificate of deposit) investments.

Where you hold these assets depends on where you are in retirement as well as where you're holding the bulk of your retirement savings. Being strategic about where you take withdrawals from can help you stretch out the tax-savings benefits from your tax-sheltered accounts. This article provides more detail on sequencing withdrawals to maximize your long-term tax savings, but here's a quick overview:

If you're older than 70 1/2 and taking required minimum distributions from your IRA or the retirement plan of your former employer, some or all of your near-term paycheck should come from those accounts. (Bear in mind that the amount of your RMD will vary from year to year, based on your account balances as well as your age.)

If you're not 70 1/2 or your RMDs won't cover your cash needs, turn to your taxable accounts to see if they will cover your cash needs during the next two years.

If your RMDs and taxable accounts won't cover at least two years' worth of living expenses, carve out any additional amount of living expenses from your IRA or company retirement plan assets using the sequence outlined above. Save Roth accounts for last because they offer the most flexibility and long-term tax-savings benefits.

4. Put It on Autopilot
Once you've identified where your cash will be coming from during the next few years, contact your financial-service provider to see if it can help automate your withdrawals, sending you the equivalent of a paycheck at preset intervals. (Better yet, your firm should be able to deposit the paycheck directly into your account.) The larger your fund company or brokerage firm, the more likely it is to offer such an option.

5. Other Important Tasks
In addition to getting your paycheck plan up and running, it's important to periodically replenish your cash assets as they become depleted. Once you've set aside your cash position, put in place a plan to periodically refill your cash stake so that it always will cover at least two years' worth of living expenses. Plan to incorporate this step into your rebalancing process. Ideally, you'd fill up your most liquid bucket with proceeds from rebalancing-related sales or with money from your next most liquid pool of assets (for example, intermediate-term bonds).

Fonte: Morning Star

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Capital pode ficar mais caro e mais escasso

O fim dos anos 90 foi uma aberração, dizem. O dinheiro fluiu para os mercados emergentes mas subitamente os abandonou, uma interrupção que, na época, pareceu uma crise gigantesca.

A primeira década do novo século, dizem, foi uma aberração. Primeiro a bolha das empresas pontocom estourou. Aí os governos de mercados emergentes, já escaldados pelos anos 90, juntaram reservas gigantescas em dólares, o que Ben Bernanke, presidente do Fed, o banco central americano, apelidou de "excesso mundial de poupança." Juntamente com o dinheiro fácil e a regulamentação míope nos países desenvolvidos, esse capital alimentou uma orgia de crédito e a bolha imobiliária nos Estados Unidos e em outros países.

Os últimos anos, dizem, foram uma aberração. O fim do boom imobiliário e de crédito resultou numa daquelas crises que só ocorre uma vez a cada século. Os governos dispararam para socorrer seus mercados e banqueiros centrais derrubaram os juros para níveis mínimos. Os investidores debandaram para a segurança dos títulos do Tesouro americano, ajudando a manter os juros baixos apesar de os EUA tomarem empréstimos vultosos, e agora é o Fed que está coibindo a alta dos juros.

E agora? O que acontecerá quando a economia dos EUA se recuperar, como certamente fará algum dia? Um resultado provável: a inversão do excesso mundial de poupança e o fim da abundância de capital barato.

Olhando além dos próximos anos, o McKinsey Globe Institute, centro de pesquisas filiado à consultoria, prevê uma explosão de investimentos por parte dos mercados emergentes, especialmente China e Índia, ao mesmo tempo em que esses países começam a economizar menos. Empresas, bancos, consumidores, investidores e governos "terão de se adaptar a um mundo em que o capital fica mais caro e menos abundante, e onde metade da poupança e investimento mundiais ocorrem nos mercados emergentes", afirma o McKinsey num novo relatório chamado "Adeus ao capital barato".

Como um todo, a economia mundial só pode investir o que poupa. No passado, um produtor rural dividia sua safra entre o milho que ele comeria ou venderia (consumo) ou o que ele guardaria (poupança) para semear no ano seguinte (investimento). O mesmo acontece na produção da economia mundial. Numa reviravolta histórica, boa parte da poupança mundial nos últimos 25 anos veio da China e outros países em desenvolvimento e fluiu para países ricos, especialmente os EUA.

Frugais trabalhadores e camponeses chineses punham dinheiro no banco. Os bancos emprestavam ao governo, que emprestava ao Tesouro dos EUA e às gigantes hipotecárias americanas Fannie Mae e Freddie Mac. E isso acabou financiando hipotecas baratas nos EUA antes do colapso do mercado e também o grande pacote de estímulo fiscal do governo de Barack Obama depois do choque financeiro. O governo, as empresas e as famílias chinesas responderam por uma notável proporção de US$ 1 de cada US$ 4 poupados mundialmente em 2008.

O centro de estudos da McKinsey afirma que essa tendência deve fenecer nos próximos anos, à medida que a China e a Índia comecem a investir mais. "A China", afirma o relatório, "planeja construir novos metrôs, autoestradas e trens de alta velocidade em suas 170 maiores cidades."

Cento e setenta! Para acompanhar o crescimento da população urbana, a China precisa criar o equivalente a uma Nova York em espaço comercial e residencial a cada dois anos; a Índia, uma Chicago por ano. Com tantas fábricas asiáticas produzindo quase no limite da capacidade, é provável que as despesas de capital aumentem vertiginosamente, prevê o economista Frederic Neumann, do HSBC em Hong Kong. Com base numa média de previsões de crescimento mundial, a McKinsey prevê que o investimento global - que respondia por pouco mais de 22% da produção mundial antes da crise - pode chegar a quase 25% até o fim da década, um nível inédito desde o início dos anos 70.

Mas a China e, especialmente, seus consumidores devem economizar menos se a história e os planos quinquenais da China servirem de guia. Os ainda frugais japoneses também devem economizar menos quando um número crescente de aposentados começar a gastar suas economias - embora a falta de investimentos promissores num país em que a população está encolhendo indique que o Japão continuará exportando poupança para outros países.

Mas de onde é que virão essas economias? Se tudo for bem, boa parte delas virá dos EUA. Os americanos, castigados pelos últimos anos, provavelmente vão economizar mais. O governo federal provavelmente terá de enxugar o déficit (processo que os economistas, fãs de cunhar novos termos, gostam de chamar de "poupança negativa"), mesmo tendo que gastar mais com aposentadorias e saúde. Se as famílias americanas e britânicas continuarem seguindo no caminho em que estão, o índice mundial de poupança vai subir um ponto porcentual e compensar parcialmente o declínio na poupança chinesa, prevista para o momento em que os chineses vão começar a gastar mais de suas rendas, afirma a McKinsey.

Mas só parcialmente. O excesso mundial de poupança pode muito bem se tornar uma escassez mundial de poupança. E isso pode resultar em juros muito mais altos.

Se os juros de longo prazo, descontada a inflação, voltarem à media de 40 anos, calcula a McKinsey, ficarão 1,5 ponto porcentual maiores, um salto considerável para o atual rendimento de mais ou menos 3% das obrigações do Tesouro americano com vencimento em dez anos. E os juros podem subir ainda mais se os mercados emergentes tentarem investir em infraestrutura e outras áreas mais rapidamente que a expansão geral da poupança nos EUA e em outros países ricos, o que geraria uma freada indesejável no crescimento mundial.


Fonte: Wall Street Journal
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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

What Happened to the Rally? Why Markets Are So Worried

Even though investors seem to have gotten everything they've wanted over the past month or so—political changes, Fed help and tax relief—the markets are still full of jitters.


Over the past few trading sessions, bond yields have jumped, commodity prices have slumped and stock prices haven't done much of anything, despite optimism that a tax accord in Washington would be the final push the market would need to close out 2010 on a strong note.

Market pros give a variety of reasons for the market churnings, from a strengthening dollar to worries about the global economy to simple sector rotation. The prevailing sentiment is that wobbles in the various capital markets are likely to be temporary yet typical of a market where volatility should be on the rise.

"We know we had a really big rally, so it seems like we're catching our breath here. It's not like we're selling off massively by any means," says Ryan Detrick, senior analyst at Schaeffer's Investment Research in Cincinnati.

"Most of the hedge fund managers and institutions are still underinvested and they're trailing the market for the year," he adds. "Any dips will be aggressively bought as institutions and mutual funds continue to pour money into the market to meet their benchmarks."

Some of the more interesting trading has happened in the bond and commodity markets.

The 10-year Treasury yield has hit a six-month high above 3.25 percent on a combination of stronger economic data sapping the safety bid that fixed income attracts, and increased worries that Federal Reserve liquidity policies will generate inflation.

Long bonds are taking a beating in particular, with investors piling into the ProShares Ultra Short Lehman 20-Plus Year [TBT 38.222 0.732 (+1.95%) ] exchange traded fund. The ETF has jumped more than 12 percent in December and 29 percent since Fed Chairman Ben Bernanke indicated in late August that the central bank would start another round of its Treasury-buying quantitative easing program.

Yields on Treasurys jumped Wednesday but eased a bit after a modest reception for a sale of 10-year notes. Both bonds and stocks were pressured from a rise in the dollar [.DXY 80.06 0.205 (+0.26%) ], which gained as much as 0.5 percent Wednesday against a basket of foreign currencies.

"We think the rally in the dollar makes sense, and that investors are right to be skeptical about the implications for US equities and commodities," John Higgins, senior market economist at Capital Economics in London, wrote in a research note for clients. "We do not believe, however, that the adverse reaction in the Treasury market is likely to last."

Similarly, many investors were viewing a pullback in metals as a buying opportunity. Gold [US@GC.1 1380.6 -1.90 (-0.14%) ] has dropped more than 3 percent in the past two trading sessions, while silver [US@SI.1 28.3 0.076 (+0.27%) ] has lost 8 percent and palladium [US@PA.1 727.2 --- UNCH ] has skidded 6 percent.

Oil [US@CL.1 88.55 0.27 (+0.31%) ] also has been hit susceptible to a stronger dollar but has held its gains in recent sessions.

"Gold is a great long-term investment but is a very difficult short-term investment because of price fluctuations like we've seen in the past two days," says Matt Grossman, chief equity market strategist at the Adam Mesh Trading Group in New York. "These pullbacks are serving as great opportunities to layer in to price positions. We could come off more, but the lower we go the happier I am."

In addition to providing potential buying opportunities, the moves out of gold also could represent a sector rotation in which fund managers trying to window dress are looking for cheap stocks and other assets.

Financials, which trailed this year's nearly 10 percent stock rally, were leading the Standard & Poor's 500 [.SPX 1228.28 4.53 (+0.37%) ] in Wednesday's seesaw trading. A search for value could be a major trend as the year closes.

"The feeling is we need to consolidate in here. A lot of guys are seeing the (S&P 500) 1,200 level as a key area to hold and consolidate between 1,200 and 1,235," says Dave Lutz, managing director of trading for Stifel Nicolaus in Baltimore. "Then we're anticipating some window-dressing that could push us toward our expectations of 1,250 by the end of the year."

There also seems to be some worry over whether the tax deal between President Obama and congressional Republicans will gain enough votes for approval. The pact resolved a dispute over whether across-the-board tax cuts from 2001 and 2003 that were to sunset at the end of this year should continue for the highest wage earners.

"The left wing of the Democrat Party is about to put the economy in very real jeopardy if they do not vote to support this compromise," hedge fund manager Dennis Gartman wrote in his daily Gartman Letter. "Economic plans on the part of individuals, corporations and partnerships have to be made for the next year, and if one does not know the tax consequences of one's decisions then one's propensity to take action shall be greatly (reduced)."

The level of uncertainty is threatening a rally across markets, even at a time when many economists are raising their growth forecasts for 2011.

"Momentum is clearly subsiding despite the rampant positive sentiment, and negative divergences are highly evident," David Rosenberg, economist and strategist at Gluskin Sheff in Toronto wrote in his daily analysis. "Just as the economics community was doing radical surgery right at the July-August lows in the market, it is now raising its growth projections right at the highs. That is a contrary warning shot."

Fonte: CNBC