terça-feira, 2 de agosto de 2011

A falta de profissional adultos


Na vida privada, como na vida corporativa, os adultos estão desaparecendo. 
No mundo da onipresente auto-ajuda, homens e mulheres foram condenados à 
infância perpétua.

Thomaz Wood Jr.

Empresa de reputação bem razoável, em fase de expansão, com proposta decente 
de trabalho, busca desesperadamente profissional que tome decisões com um 
mínimo de análise e bom senso; que não reclame todos os dias dos problemas 
da empresa; que não fique observando imóvel os negócios afundarem sem fazer 
nada a respeito; que saiba controlar o próprio ego e ouvir seus colegas; que 
tenha algum conhecimento das coisas do mundo e não restrinja suas leituras a 
livros de auto-ajuda, Caras e Veja; que não leve Steven Covey e Jim Collins 
a sério; que entenda suas responsabilidades (e não fuja delas); que saiba 
separar assuntos importantes de minúcias e irrelevâncias; que não passe a 
maior parte do tempo em reuniões ou montando conchavos políticos; que saiba 
controlar seu tempo e definir prioridades; que não reaja histérico a 
dificuldades, e, principalmente, que não fique sentado esperando o chefe dar 
ordens. Em suma, busca-se... um adulto.

Que este escriba saiba, nenhuma empresa iniciou um processo seletivo nesses 
termos. Porém, o conteúdo expressa com razoável veracidade o que muitas 
organizações estão procurando e não encontram. Conclusão: faltam adultos no 
mercado de trabalho. Naturalmente, o fenômeno não se restringe ao mundinho 
corporativo. Notem, prezados leitores, a quantidade de homens e mulheres de 
meia-idade, vestidos como adolescentes, comportando-se como adolescentes, 
falando como adolescentes e pensando como adolescentes. Aliás, adolescentes 
mal informados e mal-educados.

Explicações para o fenômeno? Michael Bywater, autor de Big Babie – : Or: Why 
Can’t We Just Grow Up? (Granta Books, 2006), tem uma. Pode não ter 
profundidade sociológica, antropológica ou psicológica. Também não é 
fundamentalmente nova, mas com certeza é provocativa e divertida. Para o 
autor, nós todos somos vítimas de uma conspiração. Isso mesmo, uma 
megaconspiração mundial que visa a nos infantilizar, nos manter como bebês 
crescidos. O foco é a conformação de nossos comportamentos, preferências, 
opiniões, pensamentos, hábitos, filosofias e sensibilidade política. Estamos 
sendo adestrados sobre que estilo de vida adotar, do que gostar e como agir.

Bywater lista uma série de pressupostos que os conspiradores assumem sobre 
nós. Alguns exemplos (nada lisonjeiros): não conseguimos controlar nossos 
desejos, não sabemos adiar o prazer (queremos tudo já), temos uma percepção 
deformada sobre nós mesmos, não temos vida interior, não temos capacidade 
para exercer a autonomia com responsabilidade, necessitamos de constante 
supervisão e não temos capacidade para tomar decisões maduras.

A vida interior dos bebês crescidos é um simulacro, preenchido por vozes da 
mídia, de especialistas e de outras supostas autoridades. Para manter o 
simulacro vivo, os bebês crescidos precisam de ajuda externa, e não há 
escassez de oferta no mercado de auto-ajuda. O resultado é um ciclo 
auto-alimentado. Diz o autor: precisamos de distrações de nossa vida 
fragmentada e solitária porque as distrações disponíveis tornam nossas vidas 
fragmentadas e solitárias.

Na vida privada, consultamos especialistas em forma física, saúde e beleza 
porque somos bombardeados por esses mesmos especialistas, com suas revistas, 
livros e palestras. Na vida corporativa, adotamos modas gerenciais e 
receitas de sete pontos porque somos bombardeados por gurus e revistas de 
negócios. Ao adotar supostas soluções mágicas, fugimos de nossa 
responsabilidade de resolver nossos problemas. Terceirizamos nossas 
atribuições para consultores e subcontratados e, com elas, entregamos nossa 
autonomia. Com isso, perdemos a capacidade de avaliar as situações, fazer 
escolhas e tomar decisões.

Pedro F. Bendassolli e Maurício C. Serafim, da FGV-EAESP, em um artigo sobre 
o mesmo tema publicado na revista GV-Executivo, observam que as empresas 
estão realizando enormes esforços para cooptar, agradar e tutelar seus 
funcionários, tratando-os como bebês crescidos e propondo, como retribuição, 
compromissos de lealdade, dedicação e amor.

Os autores lembram que Freud, em um de seus livros sobre a origem da 
civilização, afirmava que seu marco zero era “a morte do pai”. Tornamo-nos 
adultos quando superamos os modelos idealizados de autoridade e conquistamos 
autonomia. Bywater é nostálgico. Bendassolli e Serafim são céticos. Correm 
os adultos risco de extinção? Eles já se tornaram minoria. Talvez algum 
futuro plano para salvar o planeta os classifique como espécie em perigo e 
decida protegê-los. Tal medida, esta sim, seria o golpe de misericórdia que 
os liquidaria em definitivo. Portanto, às trincheiras!

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