O maior aumento dos lucros em mais de um século está dizendo aos investidores que o momento não é bom para vender ações, mesmo depois de uma valorização de 97% do índice Standard & Poor's 500.
Os ganhos do S&P 500 deverão superar o pico de 2007, de US$ 90 por ação, no terceiro trimestre, depois dos US$ 7 registrados em março de 2009, a mais rápida recuperação desde pelo menos 1.900, segundo dados da Standard & Poor's e Robert Shiller, da Universidade Yale, compilados pela Bloomberg. A diferença entre os lucros projetados para 12 meses e o ganho médio dos últimos 10 anos deverá ser a maior desde 1951.
PNC Wealth Management, Federated Investors e ING Investment Management, que juntas gerenciam cerca de US$ 1 trilhão, afirmam que os gastos do consumidor vão sustentar a recuperação depois que os estímulos do governo americano ajudaram a aumentar os lucros das empresas a partir do nível mais baixo desde a Grande Depressão. Os lucros deverão ter uma redução no ritmo de crescimento no segundo semestre, mas as compras de ações pelos investidores que perderam o avanço do S&P 500 vão alimentar os ganhos, segundo o Leuthold Group.
"As pessoas estão mais confortáveis com a recuperação do que em qualquer outro momento nos últimos dois anos", diz Doug Ramsey, diretor de análise do Leuthold Group, que gerencia US$ 3,9 bilhões e recomendava a compra de ações quatro dias antes do início do "bull market" (fase de alta). "Normalmente é quando os investidores de varejo voltam a ter coragem", disse. Para ele, isso poderá levar a uma alta de até 25% no S&P 500 nos próximos 18 meses.
Os lucros de 12 meses das companhias que fazem parte do S&P 500 estão projetados para atingir o recorde de US$ 91 por ação em agosto. Esse seria o patamar mais alto já alcançado (já considerada a inflação) e quase 13 vezes maior que o ponto mais baixo registrado há dois anos, segundo dados de Robert Shiller compilados pela Bloomberg.
A recuperação de 50 meses nos lucros, depois de uma queda de 92% durante a crise financeira global, deverá ser mais rápida que os 52 meses necessários para a recuperação após o estouro da bolha pontocom em 2000, quando os lucros caíram 55%. Os lucros demoraram 19 anos para se recuperar da queda de 67% provocada pela Grande Depressão.
A American International Group (AIG), a seguradora da Nova York que foi socorrida pelos contribuintes americanos, registrou a maior recuperação desde março de 2009. A companhia saiu de um prejuízo de 12 meses de US$ 95,8 bilhões para um lucro líquido de US$ 7,79 bilhões, segundo dados compilados pela Bloomberg.
A ConocoPhillips, de Houston, lucrou US$ 11,4 bilhões no ano passado, após perder US$ 20,3 bilhões nos 12 meses até março de 2009. A terceira maior companhia de petróleo dos Estados Unidos poderá anunciar um ganho de 22% no lucro líquido do primeiro trimestre e uma queda de 9% para o resultado de 2011 como um todo, segundo estimativas de analistas.
A Apple aumentou o lucro líquido de US$ 7,25 bilhões em março de 2009 para US$ 16,6 bilhões. A companhia de Cupertino, Califórnia, deverá conseguir um crescimento de 54% no lucro líquido no exercício que se encerra em setembro, segundo cálculos da Bloomberg. A Apple deverá anunciar em 20 de abril resultados recordes para o segundo trimestre. A ação da AIG subiu quase 500% desde 9 de março de 2009, enquanto o papel da Apple valorizou mais de 300% e o da ConocoPhillips mais de 100%.
O S&P 500 está sendo negociado a 13,7 vezes os lucros estimados para 2011, comparado a uma média de 15,7 vezes os lucros líquidos divulgados desde 1900, segundo dados de Shiller e da Bloomberg.
Os ganhos do índice totalizarão US$ 95,21 este ano, segundo estimativa da S&P ajustadas à inflação e usando a projeção média de economistas para o índice de preços ao consumidor (constatada em pesquisa feita pela Bloomberg). Se essa previsão se cumprir e o múltiplo preço sobre lucros (P/L) de 12 meses atingir a média registrada desde 1.900, o S&P subirá 12% até o fim de dezembro, para 1.494 pontos, ou 4,7% distante do recorde de 1.565,15 pontos registrado em 9 de outubro de 2007. O lucro do S&P 500 vem superando a média das previsões dos analistas há 9 trimestres consecutivos, segundo dados da Bloomberg. Os lucros para o índice ajustados à inflação deverão crescer 22% em 2011, segundo estimativas compiladas pela S&P e Bloomberg.
Robert Shiller, cujo livro "Irrational Exuberance" (Exuberância Irracional) prenunciou o fim da alta das ações na década de 1990, disse em uma entrevista que as ações americanas estão "caras". A relação P/L ciclicamente ajustada do S&P 500, uma medida de avaliação popularizada por Shiller que é calculada dividindo-se o preço do índice pelos lucros médios ajustados à inflação durante os últimos 10 anos, está 41% maior que a média registrada desde 1900.
"Vejo as atuais condições do mercado como uma grande oportunidade para tirar o risco da mesa", diz Rob Arnott, fundador da Research Affiliates, que gerencia US$ 75 bilhões em Newport Beach, Califórnia. "Quando os mercados estão caros, é melhor você deixar alguém arcar com o risco de pegar aquela moedinha que está na frente do rolo compressor."
Os lucros estão sendo inflados por tentativas do governo de estimular a economia, que não vão durar, e os lucros em algum momento poderão se reverter ou recuar para níveis médios, segundo Arnott, que prefere bônus de mercados emergentes e títulos de dívida corporativa de curto prazo.
O Federal Reserve (Fed) vem mantendo sua taxa referencial de juro a um patamar recorde próximo de zero desde dezembro de 2008. Os gastos do governo federal dos EUA responderam por cerca de 24% do PIB no ano passado, a 2 pontos porcentuais do nível mais alto desde 1945. O rombo fiscal americano cresceu para o recorde de US$ 222,5 bilhões em fevereiro.
Se os lucros corresponderem às expectativas dos analistas para o próximo trimestre, eles serão cerca de 59% maiores que a média de 10 anos. As únicas outras vezes desde 1951 em que a diferença se aproximou desse nível foram dezembro de 2006 e agosto de 2000, perto dos picos de crescimento econômico e dos lucros dos EUA, segundo dados da Bloomberg.
Isso não vai matar a recuperação, afirma E. William Stone, que previu o ganho das ações em 2009 e ajuda a gerenciar cerca de US$ 108 bilhões como estrategista-chefe de investimentos da PNC Wealth Management.
Os dados econômicos dos EUA estão superando as expectativas este ano no maior grau desde 2004, com base no nível médio do Economic Surprise Index, um índice do Citigroup que avalia como os números divulgados nos relatórios superam as estimativas dos economistas em pesquisas realizadas pela Bloomberg. "Aumentam as evidências de que temos uma recuperação autossustentada", diz Stone. "Há lucros corporativos. Há o fato de que os gastos do consumidor estão aí. As coisas estão melhorando."
As compras do consumidor americano aumentaram mais que o previsto em fevereiro, enquanto um relatório divulgado pelo Departamento do Trabalho em 1º de abril mostrou que as empresas criaram mais empregos que o estimado em março e a taxa de desemprego caiu para 8,8%, o menor nível em dois anos.
A demanda privada poderá estimular o crescimento depois que mais de US$ 12 trilhões foram injetados no sistema financeiro pelos governos e os bancos centrais tiraram a economia mundial de sua primeira contração desde a Segunda Guerra Mundial, diz Lind Duessel, estrategista de mercado de ações da Federated Investors, que gerencia US$ 358,2 bilhões.
"Estamos vendo uma aceleração do crescimento ao redor do mundo", afirma Duessel, que passou a ser otimista com as ações americanas no começo de 2009. "Isso ajuda a continuar estimulando os lucros. Esse mercado parece barato para nós."
Os números mostram que 66% das companhias do S&P 500 que divulgaram os resultados superaram as previsões de vendas no primeiro trimestre, contra 62% no período anterior, um sinal de que a demanda poderá assumir o lugar dos cortes de custos como condutora dos lucros, segundo dados compilados pela Bloomberg. A receita vem "surpreendendo para mais nos últimos trimestres", afirma Duessel. "As vendas serão estimuladas pelo emprego."
A recuperação da demanda está levando os executivos a gastar o caixa recorde de US$ 940 bilhões que eles acumularam depois da crise financeira. As empresas do S&P 500 autorizaram 38% mais recompras de ações em 2011 do que em 2010, e os dividendos poderão aumentar para o recorde de US$ 31,07 por ação em 2013, segundo dados da Birinyi Associates e Bloomberg.
Isso está melhorando a confiança entre os investidores em fundos mútuos, que venderam ações durante a maior parte do "bull market". Os fundos de ações dos EUA atraíram cerca de US$ 12 bilhões desde dezembro, comparado a US$ 134 bilhões em resgates durante os seis trimestres anteriores, segundo dados do Investment Company Institute (ICI) compilados pela Bloomberg.
Os investidores individuais estão com "bastante ações abaixo do peso normal", diz Paul Zemsky, diretor de alocação de recursos da ING Investment Management, em Nova York, que gerencia US$ 550 bilhões e aumentou suas posições em ações em abril de 2009. "O mercado está longe de ter o preço perfeito." (Tradução Mario Zamarian)
Fonte: Valor Econômico de 12/04/2011
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