Como se sabe, o tom pessimista do último comunicado do FOMC em relação à velocidade de
recuperação da economia norte-americana, assim como a decisão de manter constante a carteira
de títulos do FED mediante reinvestimento do pagamento do principal dos bônus das agências e
dos MBS (Mortgage Back Securities) em Treasuries de longo prazo, além de continuar rolando os
Treasuries nos seus vencimentos, acabou assustando o mercado e levantando temores de um
novo mergulho recessivo.
Mas, afinal de contas, o que poderia provocar uma nova recessão nos Estados Unidos? O primeiro
fato seria a ocorrência de um grande choque exógeno, como, por exemplo: 1) sério agravamento
da crise de dívida soberana na Europa, seguido por agravamento da crise bancária; 2) nova crise
financeira nos Estados Unidos e 3) brusca contração da economia chinesa.
A nosso ver, qualquer um desses choques é bastante improvável, pelo menos a curto e médio
prazo - digamos, até o final do próximo ano. A situação da Europa melhorou significativamente
nos últimos meses, graças aos resultados do teste de estresse, aos significativos ajustes fiscais
que estão sendo realizados pelos países com maiores problemas em suas contas públicas e pelos
dados de crescimento econômico, no segundo trimestre, acima das expectativas. A observância
de um novo solavanco financeiro nos EUA, por sua vez, é extremamente improvável, dado o fim
da queda dos preços dos imóveis e os elevados lucros que as instituições financeiras têm
declarado. Por fim, uma forte contração da economia chinesa dificilmente será observada. Como
temos destacado em nossas recentes publicações, a atual desaceleração é benéfica para o
desempenho de longo prazo do país, que deverá crescer em torno de 9% nos próximos dois anos.
O segundo canal que, teoricamente poderia conduzir à recessão, seria o desajuste fiscal,
mediante aumento do prêmio de risco exigido pelo mercado para continuar financiando o tesouro
norte-americano. Esse risco foi bastante destacado pelo economista John Taylor, no final do ano
passado. Assim como no caso dos choques exógenos, consideramos essa situação extremamente
improvável. Como ficou evidenciado desde a crise de 2008 (e voltou a ocorrer nesta semana) o
título do governo americano ainda é considerado o porto-seguro da economia mundial, o destino
mais provável nos processos de flight-to-quality. Evidentemente, não há qualquer divergência
sobre a necessidade de realização de um ajuste fiscal de médio prazo nos Estados Unidos. Contudo, é
difícil considerar, por ora, a hipótese de risco soberano com o juro do título de 10 anos na casa de
2,6% a.a.
O terceiro e último fator capaz de proporcionar um double-dip seria a verificação de um erro grave na condução da política econômica, sob a forma, por exemplo, de retirada prematura dos incentivos monetários e fiscais. Isso também parece ter probabilidade remota, não só porque tal hipótese tem sido veementemente negada por importantes membros da equipe econômica do presidente Obama e por diretores do FED, como também pela própria forma como tem sido conduzida e pré-anunciada a política monetária.
De qualquer modo, a despeito dessas considerações, e dada a importância do tema, achamos útil utilizar algumas técnicas estatísticas para avaliar a probabilidade de recessão nos Estados Unidos. A primeira consiste na estimação de um modelo probit, onde a probabilidade de recessão é função da inclinação da curva de juros, da taxa de juros do T-Bill de 3 meses, da variação do índice S&P500 no último trimestre e do leading indicators calculado pelo Conference Board1. De acordo com o modelo, que previu com sucesso todas as recessões desde 1969, a probabilidade de a economia americana entrar em recessão até janeiro de 2011 é de somente 1%. Para junho de 2011, essa probabilidade é de 6%, graças à recente queda do juro longo e à queda de mais de 11% do índice S&P500 dos últimos três meses. De todo modo, como se pode observar na figura 2, tais percentuais se encontram muito abaixo dos registrados no auge da crise.
A segunda metodologia é baseada em recente artigo do economista James Hamilton 2 . Ao contrário do modelo probit, a análise proposta envolve apenas uma variável, pois faz uso somente da série de PIB. Sua maior virtude é o recurso a probabilidades condicionadas, que fazem com que o cálculo da probabilidade de recessão no próximo trimestre leve em conta o atual estado da economia. Apesar da simplicidade de sua estrutura, o desempenho do modelo “em tempo real” é, no mínimo, tão bom quando o do probit. De acordo com o critério proposto por Hamilton, podemos afirmar que a recessão se encerrou no segundo trimestre de 2009. O modelo atribui uma probabilidade de recessão de 5,5% no primeiro trimestre. Alimentando o
modelo com os dados prévios divulgados no segundo trimestre, essa probabilidade cai para pouco menos de 4%.
Em suma, um double-dip na economia americana parece improvável. A melhora das perspectivas para a economia europeia, os lucros divulgados pelos bancos americanos e a desaceleração apenas gradual da China tornam pouco provável a ocorrência de grandes choques exógenos negativos. Nos Estados Unidos. a nova queda no juro longo e a retomada da política de quantitative easing, por sua vez, minimizam os riscos de uma crise da dívida soberana ou de grandes erros na condução da política econômica. Finalmente, modelos estatísticos por nós estimados sugerem baixa probabilidade de que se inicie uma nova recessão nos EUA, pelo menos até meados do próximo ano.
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