Preocupação excessiva com gastos leva a surgimento de problemas psicológicos nos pequenos
Os psicólogos adiantam: as finanças da família não são assunto para crianças pequenas e a introdução de alguns conceitos relativos ao capital deve respeitar cada idade, ser feita de forma natural e na linguagem infantil.
Se o comportamento dos pais demonstra preocupação constante com dinheiro, cultiva o consumismo e busca um padrão de vida incompatível com a renda familiar, o resultado pode ser um quadro de estresse infantil, que inclui ansiedade, depressão e crises compulsivas. Além de demonstrarem isso no comportamento, ficando, por exemplo, mais caladas, de mau humor ou agressivas, algumas crianças podem somatizar a ansiedade, apresentando dores de cabeça ou de barriga frequentes. "Em geral, 80% dos casos clínicos são relacionados à ansiedade. Esse número inclui as crianças que atendemos em consultório. A relação com o dinheiro é mais um fator nas terapias familiares", aponta Anderson Xavier de Oliveira, psicólogo e psicoterapeuta cognitivo-comportamental de São Paulo.
A terapeuta de família Lana Harari observa que, quando os pais têm problemas financeiros, tendem a negligenciar o papel parental, dando menos atenção aos filhos e se comunicando de forma inadequada, queixando-se constantemente da falta de dinheiro ou de seus trabalhos. Esse ambiente afeta os aspectos psicológicos da criança e pode prejudicar o desempenho escolar. As crianças tornam-se irritadiças, cínicas, deprimidas e têm medo de que os pais se separem ou morram, submetendo-as a privações severas. Já na adolescência podem vir a ter dificuldades em ganhar ou gastar dinheiro.
A autoestima também é afetada, pois a questão produz insegurança e sentimento de inferioridade. "O equilíbrio na relação financeira é importante e os pais têm de olhar para o próprio comportamento. Eles são espelhos para os filhos e por eles serão copiados", avalia.
Lana sentiu na pele a influência da pressão pela conquista de bens materiais na vida das crianças. Quando sua filha tinha nove anos (ela preferiu não revelar seu nome), viu a melhor amiga da escola enriquecer repentinamente. Ao visitar a nova casa e se deparar com os bens da amiga, o sentimento de inferioridade atingiu a filha de Lana, que se calou e perdeu o interesse por algumas atividades. "Comecei a conversar com ela para entender o que estava acontecendo. Quando percebi, tive de trabalhar sua autoestima, afirmando que é normal ter pessoas mais ricas que outras", explica. Mesmo em uma família equilibrada financeiramente, a experiência da terapeuta demonstra que é necessário ter uma conexão grande com os filhos para entender suas aflições e encontrar soluções.
A boa notícia é que a criança sempre encontra um jeito para expressar suas angústias. Lana conta que, no ano letivo que se seguiu, as amigas ficaram em classes diferentes, por decisão da escola. "Não interferimos e, neste caso, a separação foi boa. Minha filha aproximou-se de outras crianças e percebeu que também era ´mais rica´ que algumas. Conseguiu lidar com as diferenças."
Maria Helena Mosquetti, psicóloga do Instituto Alana, considera que os pais de hoje já foram criados em uma cultura de consumo, o que agrava os problemas financeiros de muitas famílias. "Se a mãe ou o pai comenta com um amigo que se sentirá melhor ao comprar uma roupa de marca, ou mais respeitado por dirigir um carro novo, a criança vai acreditar nisso. Essa é a referência dela", afirma. Esse conflito traz problemas em toda a sociedade, uma vez que as famílias tendem a se endividar para obter ´sucesso material´. "A pressão é absurda. Para pertencer a um grupo, as crianças querem ter tudo o que os amigos têm. Estão constantemente insatisfeitas porque acreditam que seus anseios só podem ser preenchidos por bens materiais."
Maria Helena observa algumas distorções que se refletem nos índices de violência, na gravidez na adolescência e na obesidade infantil. Segundo dados da Fundação Casa sobre seus internos, 53% dos jovens detidos se envolveram em roubos qualificados, enquanto 10% atentaram contra a vida. "Esse dado mostra que os jovens querem ter o que os outros têm. Buscam realização pelos objetos." Já a pesquisa nacional de demografia e saúde da mulher e da criança, publicada com dados levantados entre 1996 e 2006, observou aumento de quase 100% no percentual de grávidas com idade de 15 anos neste período. "As meninas são lançadas muito cedo para o mundo do consumo. A erotização precoce vende produtos, mas traz consequências ruins para a sociedade". Outro indicador é a obesidade infantil. De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, 30% das crianças brasileiras estão com sobrepeso e 15% são obesas. "A compulsão alimentar é um distúrbio que pode ter origem no consumismo", diz Maria Helena.
Oliveira lembra que a intenção de dar o melhor aos filhos pode levar os casais a cometer erros. É comum, por privilegiar a educação, colocar a criança em uma escola que é incompatível com o padrão de renda da família. Quando isso acontece, a família sacrifica-se para pagar a mensalidade e não considera outras necessidades da criança exposta a um padrão de consumo superior. "Há o risco de ela sentir-se marginalizada por não ter o mesmo tênis, viagens e brinquedos que os colegas. Essa frustração traz um sentimento de vergonha que pode interferir no seu desenvolvimento", avisa.
Para a educadora financeira Cassia D´aquino, se houver uma opção pela escola mais cara, esse assunto deve ser debatido na família, mas não do ponto de vista do dinheiro. "Os pais precisam explicar que a educação é o bem mais importante para a criança e que ela terá de lidar com pessoas mais ricas nesses ambientes". A ideia principal é a de valorizar a oportunidade de conhecimento e não o padrão financeiro dos colegas da escola. Por isso, a conversa direta e a exposição da realidade, segundo ela, dão segurança para a criança, que saberá seus limites. "O dinheiro tem de ser visto como uma utilidade, não como o objetivo final de todas as ações."
Para conseguir êxito, os pais precisam acompanhar constantemente o desempenho dos filhos e mostrar que há valores muito mais nobres do que os objetos. O aprendizado virá pela repetição e convivência, uma vez que educar um filho, até para as questões financeiras, é um trabalho de longo prazo. "Ensinar valores é muito diferente de querer ter um pequeno financista ou contador na família. Investimento e dinheiro são assuntos para adultos", avisa Cassia.
Ela afirma que é importante manter-se firme nos propósitos e não ceder à pressão emocional dos filhos. Se os pais se endividarem para dar tudo o que a criança quer, o dano pode ser grande. Ela não vai entender os seus limites e o ambiente familiar pode ser sempre tenso por conta do aperto no orçamento. "Dizer não é difícil. Mas as crianças acabam entendendo e aceitando", tranquiliza Cássia.
Outro erro comum, apontado por ela, é colocar a criança no cerne dos investimentos. "Toda e qualquer decisão tem de ser tomada em prol da família." Isso significa evitar martelar na cabeça da criança frases como: estou poupando para o seu futuro, a sua educação é muito cara, você sabe quanto você custa?. "Os pequenos sentem-se culpados. Eles não precisam se preocupar com o dinheiro, vão aprender a usá-lo na hora certa. Cabe aos pais educá-los para ganhar e gastar de forma equilibrada e responsável", conclui. - Ediane Tiago 14/8/2009
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